O Mestre

Eu estava na minha sala, quando Maria Flor apareceu na porta e disse:

– Seu Arthur, o pessoal da Universidade está querendo reservar uma mesa. Eu expliquei que paramos de fazer reserva, mas a moça que ligou se apresentou como secretária do Reitor, e ela insistiu, porque trarão um Professor que visitará a Universidade.

Inclinei-me para trás na minha cadeira e perguntei:

– Você sabe que professor é esse?

– Sei… ele é uma estrela de rock da Astronomia.

– Cara, ele é tão famoso assim?!

– Sim, ele é, e fará uma palestra nesta sexta-feira… e virão depois que terminar: ele, o Reitor com a sua esposa e o Diretor da Faculdade de Astronomia com a esposa dele.

Pensei um pouco… e disse:

– Ok, faça a reserva… pegue a mesa do centro, já que virá muita gente importante.

– Pode deixar, eu confirmo com a secretária.

Estamos na segunda, e então coloquei o aviso na agenda eletrônica para lembrar na quarta, na quinta e na sexta pela manhã e à tarde… é isso mesmo, quatro avisos para não dar erro.

Na quarta, eu chamei os garçons e expliquei do evento extraordinário… e quando chegar a sexta, a própria Maria Flor colocará um cartão de mesa, informando que a mesa está reservada… e já que virá gente importante, vamos ver o estoque de vinhos e destilados, para estar tudo perfeito. Finalmente a sexta chegou, e eles estarão por aqui lá pelas oito da noite. Estava tudo tranquilo, até que lá pelas oito e dez, a casa começo a encher de alunos universitários… pelo visto ficaram sabendo do “Happy Hour”. Mas o pessoal da reserva chegou às oito e vinte… os professores, as esposas e o convidado, sentaram… e eu pude dar uma boa olhada nele, que deveria ter em torno de um metro e setenta, ombros largos com uma protuberante barriga, cabelos e barba brancos, ele tinha um olhar diferente, como se admirasse tudo que via. Eles sentaram, o garçom foi até o Reitor, com os cardápios… ele deu uma olhada, se virou para o meu funcionário e o que ele disse deixou-o com os olhos arregalados, ele veio até mim e disse:

– O senhor da mesa do meio pediu… para surpreender eles.

Como é que é?! Isso é tudo que sempre quis ouvir de um cliente! Olhei para o garçom, e disse para adiantar água para eles, depois procurei minha fiel escudeira, chamei-a e fomos até a adega, peguei três garrafas de um vinho branco onde suas uvas foram cultivadas em solo vulcânico, ele é refrescante com acidez crocante e notas salinas… depois fomos para a cozinha e vasculhamos por algo interessante por lá. O ajudante do Tonhão saiu correndo até a padaria mais próxima e voltou com dois pães com casca mais dura e seca… e desses pães nasceram bruschettas. Havia um queijo cabra fresco dando sopa na geladeira, felizmente ele estava na validade, Maria Flor os disponibilizou na tábua de frios e adicionou um fio generoso de mel sobre ele. Além desse queijo ela colocou na tábua, pedaços de gorgonzola, lascas de parmesão, e um vidrinho com geleia de pimenta. E para finalizar um pratinho com croquetes de carne…

… e agora chegou a hora, levamos os vinhos e servimos, já que eles estavam com o paladar limpo por terem bebido a água, mas não esquecemos de deixar para eles mais garrafinhas do líquido importante para a vida, depois levamos as bruschettas, a tábua de queijos com pão e finalmente os croquetes. Os olhos do visitante brilharam, e deu para perceber que a conversa dos cinco estava muito empolgada. Quando o papo acalmava, os alunos que orbitavam a mesa podiam tirar selfies com ele.

Maria Flor veio até mim e me deu uma ideia, e a autorizei a fazer… ela tem um amigo que trabalha num mercado aqui perto, e ela conseguiu que ele trouxesse lulas, para ela preparar para o evento… o rapaz chegou em vinte minutos, com as lulas já cortadas na espessura adequada, um dedo. Enquanto eu pagava, Maria flor levava o saquinho para a cozinha, colocou os anéis para secar, enquanto preparava a farinha com o fubá num saquinho plástico… depois de secar, ela temperou os anéis, e os jogou dentro do saquinho, para fechá-lo e chacoalhar tudo para que as farinhas pegassem em tudo sem empelotar. Depois passou numa peneira para tirar o excesso, quando ela terminou, Tonhão já estava do lado dela, e ele disse:

– O óleo tá pronto, do jeito que você pediu!

Ela foi até a fritadeira e jogou tudo dentro dela, a cento e oitenta graus Celsius… depois de três minutos, já estava escorrendo o óleo para ir numa bela travessa, que foi levada por ela mesma para a mesa do convidado. Todos se surpreenderam quando viram aquela iguaria. O convidado pegou um anel, colocou em sua boca, mastigou e fez expressão de prazer, então ele disse:

– Amo Lula à Dorê… e estão perfeitas!

Todos à mesa provaram e elogiaram… e foi que um rapazinho que estava lá, em pé na frente de convidado perguntou:

– Mestre, por favor, fale o que mais te encanta no universo!

Ele parou, olhou para cima pensou… e disse:

– A maioria de vocês devem saber… estamos num planeta que está a uns cento e cinquenta milhões de quilômetros da sua estrela, viajando numa elipse a cento e sete mil quilômetros por hora… com um eixo de uns vinte três graus, e é este eixo que permite que tenhamos as estações do ano… e o nosso planeta tem uma massa de seis sextilhões de toneladas, gerando uma gravidade de dez metros por segundo ao quadrado, e para lançarmos nossos satélites, os foguetes devem gerar velocidade de doze quilômetros por segundo… e o índice de refração, ou seja, quanto que ele reflete da luz que recebe é 0,39… e talvez seja por isso que o nosso planeta seja tão especial, porque com essas condições pode gerar a vida… vida que começou de forma simples nos oceanos e depois evoluiu para tomar conta de todos os ambientes. Até que houve o ponto no tempo em que nossa espécie surgiu e evoluiu para termos percepção de nós mesmos e do universo, nos levando até a este pequeno momento em que estamos, e por tudo isso, eu sou grato.

Foi nesse instante que eu olhei em volta, e percebi que todos estavam parados e quietos ouvindo, os alunos, os professores, os demais clientes e os garçons, todos em silêncio para ouvi-lo falar. Foi como se o universo estivesse nos tocando para estarmos em comunhão… foi então que eu me senti feliz!

Nota do Autor:

Há 50 anos, no mês de setembro, Vangelis lançou o disco Albedo 0.39. É um álbum que nos permite viajar pela infinitude dos cosmos, para então percebermos a sua grandeza dentro de nós. Achei interessante me inspirar na sua música homônima, dando uma vestimenta livre, para fazer o discurso do mestre.

Conheci esse álbum na segunda metade dos anos 80, e ele sempre me inspirou… e esta é minha humilde homenagem ao mestre e para sua obra, que ainda me faz sonhar.

Um abraço para todos!

Imagem Gerada por IA

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