O Papinho

Quinta-feira, de noitinha, e estou no meu escritório terminando os últimos pedidos com os meus fornecedores… o último pedido com o último gole de chá. Bem, hora de descer. Na cozinha, quando vejo o Tonhão, percebo que ele está diferente, com o ar mais leve. Quando chego no salão e vejo Maria Flor, ela também está com um sorrisinho feliz e leve… legal… vou para o balcão, atrás do caixa. E eu percebo bem ao longe uma conversinha que não para. E por incrível que pareça eu consigo ignorar… por um tempo!

 
Tem momentos que escuto um rapaz falar… depois outro… e depois, uma moça! E percebo que a voz da moça se destaca um pouco mais que a dos rapazes. Quando olho na direção do papo, quem eu vejo?! Serena… ela está sentada em uma mesa, conversando com dois outros rapazes em outra mesa. E eu reconheço os dois… são alunos da Universidade que fica aqui perto… um já se acha astrônomo e o outro físico. O papinho deles costuma ser cansativo… mas a Serena parece que está colocando os dois no lugar deles. Quando me aproximo, eu a escuto dizer enquanto mistura a sua bebida com um canudo:

– Mas é claro que é quase impossível para você viajar no tempo. Para isso, você precisará acessar a quarta dimensão, e como você consegue fazer isso? Usando a energia de um universo inteiro! Então é quase impossível… a não ser que você seja um Deus e você poderá estar em todas as realidades ao mesmo tempo; e poderá, inclusive, escutar as preces da tripulação de uma nave espacial perdida a alguns universos de distância.

Os dois rapazes ficaram olhando com expressão de dúvida para ela… isso que ela disse foi esquisitamente específico. Então o quase astrônomo disse:

– Então, ok. – e o papo acabou naquele instante… minha deixa!

– Serena, que bom te ver!

– Oi, Arthur, tudo bem?! – e ela abriu aquele sorriso que só ela dá.

– O que você está tomando?

– Água com gás e groselha… você tem aqueles sanduichinhos de ricota com peito de peru?

– Claro, é para já.

Fui num pé e voltei no outro… com uma porçãozinha dos sanduichinhos, que coloquei na frente dela. Ela pegou um deles, que estava com as fatias dos pães levemente tostadas, e perguntou:

– Você está bem?!

– É… estou… e você?

– Estou ótima. Senta aí e me conta uma novidade!

– Ah… tudo meio na mesma.

– Não, eu sei que você teve um probleminha… e estou feliz que você esteja terminando de digeri-lo. Tem coisas que não estão no nosso controle, e aquilo foi uma delas.

– É, eu sei. Isso é uma lição que sempre temos que relembrar… mas cá entre nós, você é que tem que me contar uma novidade! – como ela soube da questão do Ulisses?!
– Uma novidade… eu posso te dar uma dica do que pode vir a acontecer.
– Você é uma vidente?

– Não, claro que não! – ela disse rindo, um riso gostoso, franco e continuou – Não posso te dar detalhes, mas um rapaz virá te pedir ajuda para auxiliar, como posso dizer, o chefe dele… então por favor, ajude-o!

– Ajudar quem?

– Só posso te dizer isso, mas é importante que você o ajude… porque a família depende dele!

– Ok… estarei com a mente aberta para ajudar alguém que vier pedir ajuda.

– Lembre-se, será como um pupilo que virá falar do mestre dele.

Tentei lembrar de alguém nessa circunstância… mas ninguém me veio à cabeça. Então perguntei outro assunto:

– Oh, e o rapaz que é seu par, como ele está?!

– Ele está bem… correndo como sempre.

– Ele se acertou com você?

– Não se acertou ainda, mas ele vai… e tenho que te agradecer por ter dado uma prensa nele!

– Eu faço o que posso para ajudar.

– Continue assim! – disse Serena, levantando o seu cartão mostrando que quer pagar para ir embora.

– Mas já? Fica mais um pouco. – caraca, não é que ela comeu tudo!

– Bem que eu gostaria, mas tenho que visitar uma amiga que está perdida e com pré-depressão. Tenho que falar com ela para ajudá-la a seguir em frente.

– Ok… como você desejar. – fui até o caixa e peguei a maquininha de pagamentos, dois minutos depois ela estava indo embora, e eu disse – Tchau, Serena, volte sempre!

– Claro que voltarei… eu gosto dos sanduichinhos daqui e voltarei enquanto estiverem no cardápio!

– Que bom, então eu nunca os tirarei de lá.

Ela sorriu… e foi embora. E aquele fenômeno engraçado aconteceu de novo… o Bar Uky ficou um pouco triste, como se a felicidade desse uma saída à francesa.
Depois, no caixa, vieram os dois alunos… e o quase físico disse:

– Aí, chefe, tudo bem? Quem é aquela moça?

– É a Serena… por quê?!

– Poxa, ela é gata.

– Sim, ela é… mas não é para o bico de vocês, ela já tem um pretendente.

Então os dois pagaram, e foram embora de cabeça baixa.

Imagem Gerada com IA

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