Consequências

Tudo bem com vocês? É, eu não estou muito bem… ainda estou mexido com a história do Ulisses, que foi encontrado morto num quarto de hotel de quinta. Lembro dele dizer: “… relaxa, você não é o primeiro dono de bar a tentar fazer terapia comigo… e pelo que vejo, não será o último…”, e aí que está a piada do destino, eu fui o último dono de bar que falou com ele. Sei disso porque a polícia rastreou os passos dele até o Bar Uky. E perguntaram como havia sido o atendimento e se tínhamos alguma informação… e eu e meu pessoal dissemos a verdade. A sorte é que tenho câmeras aqui no bar, então eles puderam ver o rapaz chegando, o atendimento dele e depois indo embora de livre e espontânea vontade. Mas mesmo assim…

Eu fiquei deprê… a ponto da minha mulher falar para eu pegar uma folga. E foi isso que fiz, peguei um dia para mim, fui no Boteco do Nivaldo, que é o boteco dos botequeiros… todo dono de bar ou boteco que fica mal ou com alguma dificuldade, vai lá bater um papo com ele. Alguns conversam sobre os negócios… outros sobre a família… outros só vão lá encher o saco.

Bem, meu caso é diferente, e cheguei um pouco mais cedo para pegar um lugar no balcão. Sentei e pedi uma cerveja para o rapaz que estava próximo, ele trouxe a garrafa e um copo em forma de tulipa, peguei e disse:

– Deixe que eu me sirvo. – é, gosto de pouco colarinho.

Olhei em volta para ver o movimento e, depois que dei o primeiro gole, ouvi uma voz familiar:

– O que você está fazendo aqui?!

Olhei na direção da voz e era o Nivaldo falando comigo com um sorriso bem-humorado… abaixei o copo e retribuí o seu cumprimento:

– Fala, Seu Nivaldo… é, vim dar uma volta.

– Você veio dar uma volta? Se você está aqui, é porque o mundo está acabando.

– Éhh, quase isso.

– O que aconteceu?

Então contei do Ulisses, que ele foi até o Bar Uky e o seu desfecho… e terminei perguntando:

– Até onde a gente tem que se intrometer na vida de um cliente?

– Essa é uma boa pergunta, Arthur… na verdade, é uma tradição conversarmos com os clientes… desde o primeiro estabelecimento estabelecido para estabelecer bebida de qualidade que surgiu quase quatro mil anos atrás! Todo mundo gosta de ser ouvido, mas alguns não gostam ou querem ser aconselhados… é o caso do rapaz. Eu sei que você foi falar com ele na melhor das intenções, mas ele só queria que você concordasse.

– Eu sei disso, pensando depois percebi que ele estava autodestrutivo, a ponto de ir embora por recusar a beber água.

– E ainda bem que ele foi embora… pensou se ele passa mal dentro do seu bar. Se ele morre dentro dele? Como ficaria a sua imagem? Não importando se não tenha algo a ver, e que você seja inocente e ele uma bomba relógio. E ele explodiu longe de você. – é, eu não tinha pensado nisso.

– Ele estava armado?

– Que eu saiba não estava.

– Ainda bem, já imaginou se ele ficasse bravo e resolvesse mostrar que era o machão! E sacasse uma arma… e a merda se ele fosse um dedo mole e atira em alguém. Esse alguém to querendo dizer é: você! Como ficariam as coisas sem o Arthur a partir de uma semana atrás? Você pensou nisso?

– Não, Nivaldo, não pensei nisso.

– É… teríamos ido ao seu enterro. A Dna Carolina estaria viúva… teu funcionários desempregados. Os que gostam de você diriam que morreu antes da hora, os que não gostam diriam que você era uma boa pessoa. – duvido que o pessoal da YEAHH dissesse algo como isso – Então, meu amigo, agradeça ao Poderoso pela bomba ter explodido em outro lugar.

O Nivaldo está certo, e a marca dele é o pragmatismo que nos pega de calças curtas. Agradeci as palavras e terminei a minha cerveja e tomei mais uma, acompanhando um beirute de filé mignon e batatas fritas. Deviam ser umas três da tarde… voltei para casa e, como estou de folga, fui assistir TV, e peguei o final de um noticiário. E não é que falaram do Ulisses de novo, mas agora falaram da mulher que esteve com ele no hotel… era uma acompanhante. E nas palavras dela:

– Ele ligou para mim e eu fui até o endereço que ele me deu e o encontrei bebendo… fiz o que ele me pediu e ele estava vivo depois que me pagou e eu fui embora.

É… Sr. Ulisses, um modelo de cidadão!

Imagem Gerada com IA

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