A Tempestade

Caraca… terça-feira de tempestade, não tem ninguém no bar, a chuva brava espantou todo mundo. Só tem uma coisa a fazer: fechar mais cedo. E começamos o processo, lavar o chão, recolher as coisas, fechar as portas, então a luz acaba. Parece brincadeira, mas apagou assim que fechou a última porta… e agora chegou a hora da decisão difícil, que é: sair e tomar um banho, porque a chuva ficou mais forte, ou esperar um pouco.

Alguns decidiram sair agora… outros ficaram para esperar a força da chuva baixar, dentre eles: eu, Maria Flor, Malvino, Tonhão… e três garçons: o gordo, o magro e o feio.

Acendemos velas e ficamos com uma lanterna em cima do balcão, dei um refrigerante para cada um e coloquei um grande prato com queijo provolone em petisco entre nós, já que teremos que esperar… sabe-se lá quanto tempo. Então, o Tonhão começou:

– Poxa, não gosto de noite chuvosa, lembra das histórias que o pessoal contava lá em casa, principalmente o irmão do tio da minha avó. – ele deu aquela chacoalhada de calafrio, então começou a contar – Ele contava que um vizinho, da época que ele vivia na roça, era pastor de ganso, saía com suas aves toda manhã para elas pastarem e se exercitarem…

– Oh, Tonhão, ganso pasta? – perguntou Malvino com um sorriso malicioso no rosto.

– Pasta, ele come grama e sementes. E depois de um dia de trabalho, ele percebeu na contagem que faltava uma ave. Ele saiu pela roça para procurar por ela… e foi a cavalo para ir mais rápido e, durante a saída, ele encontrou um ganso. O vizinho pegou a ave para ir junto dele em cima do cavalo, e depois de um tempo aconteceu uma coisa esquisita. O ganso começou a fazer uns barulhos esquisitos e começou a inchar e gemer, e ele foi jogado no chão, e continuou inchando, crescendo e gritando… então o vizinho fugiu.

– Como é que é?! – indagou o feio.

– É isso mesmo. – confirmou Tonhão.

– Mas que historinha mais nada a ver! – falou o feio – Vou contar a história do cliente fantasma.

– Cliente fantasma? Ele bebeu e não pagou? – perguntou Malvino.

– É quase isso… era um homem alto e quieto que entrou no bar…

– Que bar é esse? – perguntou o Malvino transbordando malvadeza.

– Ohh, Malvino… você está me mangando, é?! Deixa eu contar a história!

Malvino não parava de rir e Maria Flor olhava para o chão tentando disfarçar.

– Como eu ia dizendo, o homem entrou no bar, pediu uma dose de bitter e deixou uma moeda sobre o balcão enquanto era servido, e depois ele ficou lá olhando… até a hora que começou a chover. E chovia pesado, fazendo o pessoal começar a fechar o bar, e quando foram no canto onde ele estava… não havia ninguém, só o copo cheio e a moeda velha suja de terra.

Todo mundo ficou quieto, então Malvino quase explodindo de rir disse:

– Eita, o cara era do Alcoólatras Anônimos e só foi lá para tirar uma onda!

– Não fala assim, cabra, dizem que esse homem aparece no bar sempre que tem uma tempestade brava! – falou o feio ficando bravo.

– Sei… então era para esse cara ter vindo aqui hoje, não era?!

Todo mundo ficou em silêncio, e instintivamente começaram a olhar em volta. E não vimos nada, porque não tinha o que ver… e neste instante um barulho ocorreu do lado de fora, no local da janela, onde tem uma porta de descer, Tonhão e os Garçons pularam. Malvino rindo disse:

– É a árvore seca que está raspando os galhos na porta de descer… HAHAHAHA…

– Você para com isso! – disse o feio que estava ficando bravo.

Foi que escutamos outro som… o velho rádio AM, que é um enfeite e fica em cima do caixa, começou a funcionar, ficou chiando. A questão é que ele nunca ligava, como ele resolveu ligar naquele instante?! Eu subi na cadeira e desliguei ele, deixando no mesmo lugar.

– Que hora para ele começar a funcionar! – disse o gordo.

– Quando a gente precisa, ele não funciona. – disse o magro.

– Ele deve ligar sozinho toda a noite… é que nesse horário não tem ninguém, então ninguém vê que ele funciona. – foi a resposta lógica que achei.

– Querem ouvir uma história assustadora? – começou o Malvino – Um grupo de bandidos fez um assalto num banco e fugiram com o dinheiro. Eles rodaram e rodaram, até ir no esconderijo que era numa casa, dita como mal-assombrada, eles ficaram lá por três dias. Mas no final da noite do terceiro dia, todos da vizinhança escutaram tiros dentro dela e chamaram a polícia. Quando chegaram, o chão estava todo sujo de sangue, o dinheiro estava no local deixado, mas não havia corpo algum!

Todos ficaram olhando com cara esperando uma resposta… então Maria Flor foi para a cozinha, e a luz voltou… e ela deu um grito ensurdecedor e todos nós corremos para ver o que estava acontecendo. Chegando lá, ela estava sentada no chão como se tivesse caído olhando para frente e, quando olhamos, nós vimos: o mancebo com o casaco e o boné do Tonhão.

Imagem gerada com IA

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