O Forasteiro

Nota do Autor: se puderem, durante a leitura, escutem a música Acid Bubble do Alice in Chains.

São cinco da tarde de terça, ainda é começo da semana, um dia para ser calmo… foi quando o forasteiro chegou. Andando pesadamente, olhando para o chão e era como se víssemos uma corrente puxando uma bola de ferro presa a sua perna, não o deixando andar direito. Ele caminhou até o balcão e sentou, olhou com os olhos perdidos para o “MONSTROÁRIO” de bebidas que fica no fundo do balcão. O barman chegou… e perguntou:

– O que o Senhor deseja beber?

– Qual o drink mais forte que você tem aí?

– De zero a dez, quanto você quer de forte?

– Doze… quem sabe treze.

O barman deu um passo para trás… coçou o queixo, olhou em volta, e pegou uma garrafa escondida atrás do mostruário de bebidas. Eu vi que garrafa é essa, é do “Chorume”, a gente a serve para quem está perdido no fundo do poço, composto por Cynar, catuaba, vodka vagabunda, água de conserva… ele encheu três quartos de um copo alto com ela e depois pegou um refrigerante a base de cola sem gás, que é o volume morto da bebida, e que estava na geladeira embaixo do balcão e adicionou no um quarto que faltava. Deu mexidinha de leve com uma colher de misturar drink e entregou ao forasteiro… ele deu um senhor gole, e depois descansou o copo sobre o balcão, pensou duas vezes e disse:

– Eu quero algo um pouco mais forte.

O barman com cara de assustado disse:

– Sr. Arthur… não sei dizer se é um código 4, 8, 12 ou 13.

Eu me aproximei, e o forasteiro olhou para mim… com olhos vazios de alguém que perdeu algo muito tempo atrás, e com a face de quem revive as memórias tentando descobrir o que e quando perdeu… me posicionei na frente dele e perguntei:

– Fala, rapaz, só vai beber? Tem que comer alguma coisa!

– Não… eu vim para beber. Não tenho coisa melhor para fazer hoje!

– Vai conseguir aguentar a ressaca amanhã? – é, alguém tem que falar.

– A Ressaca… é uma velha amiga.

Ele fala como um velho alcoólatra, a cura da ressaca dele é beber pela manhã para parar de tremer. Diferente de nós que é beber água com um analgésico… fazendo promessa que nunca mais vai tomar uma. E ele riu triste e continuou:

– Ei, chefe… relaxa, você não é o primeiro dono de bar a tentar fazer terapia comigo… e pelo que vejo, não será o último. – e ele deu mais um gole do chorume – Minha vida já era, e agora é esperar pelo fim.

– Porque você diz isso… você ainda parece jovem. – apesar da cara acabada que o álcool deu para ele.

– É, chefe, agora a culpa é toda minha… há muito tempo me enganaram, disseram que eu só tinha um destino, eu acreditei… e me juntei a esses mentirosos como uma equipe, como se fosse ganhar muito, mas agora descobri que tinha escolha e a minha vida perdeu sentido por lucro fácil.

– E realmente a vida não tem sentido… nós que damos isso para ela.

– Isso é besteira.

– Não é não… nós que damos o sentido e o significado para as nossas vidas. Não sei o que disseram para você, mas acredito que você tenha as condições de descartar isso e seguir o que você acredita ser certo.

– Os outros donos de bar disseram o mesmo.

– Pessoas inteligentes pensam parecido.

– Sei… sabe o que parece, chefe, que vocês estão presos a um manual: “O que falar para um cliente problemático”!

– E o que você diria para um “cliente problemático”?

– Típico, dar uma pergunta sem reposta para ganhar um determinado ponto na conversa.

– Não é uma pergunta sem resposta… você que está se negando a responder.

– HUM… – o copo já estava vazio e ele colocou sobre o balcão, olhou para mim e balançou a cabeça para servir mais.

Peguei uma garrafa de água mineral e disse:

– Não antes de você tomar um gole disso aqui!

– Nem a pau… isso enferruja. – ele fez uma piada tentando desqualificar minha ação.

– Sem água, sem bebidas.

– Mas sou eu quem está pagando!

– É isso que sempre te disseram? Que quem paga manda? Não sei para você, mas ações podem ter consequências… se acontecer alguma coisa com você depois de ir embora, poderão acusar a mim e meu pessoal.

Ele pegou a sua carteira, tirou o dinheiro e jogou sobre o balcão:

– Fique com o troco.

E foi embora… ele não é o primeiro mal-educado que vem aqui… querendo beber como se fosse a única solução para apagar uma memória impressa a ferro e fogo no seu cérebro carcomido pelo álcool e a raiva… mas parece que tem algo mais. Ele quer que aceitem o ponto dele como uma verdade absoluta e verdades absolutas não existem, e para alguns, nem a verdade existe. Parece que há dois tipos de pessoas, os anestesiados, que não percebem como mudar… e os preguiçosos, que aceitam algum ganho de curto prazo para justificar o NÃO à mudança.

Os dias passaram e o jornaleiro, como de hábito, deixou um exemplar aqui comigo… e foi aí que vi o bebedor raivoso. O Nome dele era Ulisses… era, porque o encontraram morto, num quarto de quinta no centro da cidade. Encontraram no seu sangue, álcool e algumas substâncias ilegais… encontraram também vestígios de uma mulher, que deve ter ido embora depois que ele morreu. Me parece que ele achou o que procurava.

Imagem Gerada com IA

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