Quartou… e o dia começou como um dia comum, com a maioria dos clientes de sempre vindo para cá para tomar um café pela manhã, depois retornando para o almoço… e finalmente vindo tomar uma cerveja no começo da noite, para depois irem para casa. E enquanto iam embora vi, uma face familiar se aproximando da entrada, meu velho Mestre Iggy. Que veio falar comigo ao me ver:
– Fala, Arthur… há quanto tempo!
– Fala, Mestre, há quanto tempo mesmo! Finalmente o Senhor veio ao meu Bar! Fico feliz por isso!
– Eu que estou feliz de estar aqui! É… a Catarina, minha esposa, vai passar essa semana na casa da minha filha mais velha. Aproveitei para vir aqui conhecer o seu Bar, que é muito bem falado!
– Ô Mestre… o Senhor está me deixando sem jeito. O que o Senhor deseja beber?
– Um chopinho está bom, mas com colarinho baixo, ok?!
– Pode deixar! – pedi para o barman providenciar, olhei em volta e vi Maria Flor, chamei por ela – Flor, vai até a cozinha e traga o Tonhão aqui… tenho alguém para apresentar para vocês dois.
Ela foi num pé e voltou no outro com o Tonhão ao seu lado e ao chegarem, eu os apresentei:
– Flor, Tonhão, este é o meu grande Mestre Iggy. Ele que me introduziu ao universo da cozinha… indo da comida confortável até a um pouco mais sofisticada.
Os dois arregalaram os olhos e o cumprimentaram:
– Ouvi muito falar no Senhor! – disse Tonhão.
– Mestre Iggy, o Senhor dá aula na Universidade da Cidade, não é? Não espero a hora de ter aulas com o Senhor!
– Eu tive uma ideia, – falei porque tive mesmo – vamos agradar o paladar do Mestre Iggy. Ele vai falar o que ele quer sentir ao comer, e vocês vão fazer um prato, qualquer um que seja, para causar essa sensação!
Mestre Iggy olhou para nós três e disse:
– ISSO… parece interessante, mas façamos diferente: façam o que quiser… me surpreendam!
Os dois saíram da nossa frente no mesmo instante que ouviram a frase: “me surpreendam!” Depois me virei para o meu Mestre e perguntei:
– Mestre, como anda a vida?
– Anda bem, mais dois anos eu vou me aposentar. Quem gostou disso foi a Catarina… inclusive era para eu ter viajado com ela, não fui por causa da Universidade.
– Aconteceu alguma coisa para a Dna. Catarina ter viajado?
– Aconteceu… nasceu o nosso netinho!
– POXA, Mestre… porque não disse logo! Meus Parabéns! – saí de trás do balcão para abraçá-lo, e ele estava com o semblante feliz – Qual é o nome do netinho?
– O nome dele é Pedro.
– É um bom nome… um clássico! É o seu primeiro neto?
– É sim, estou curioso para ver como a vida dele vai ser, as coisas que ele aprenderá e descobrirá… e feliz de estar longe quando chegar a puberdade!
Nós dois rimos, o meu Mestre sempre teve um humor afiado… muito mais do que eu.
Neste instante… Tonhão chegou com o seu prato, que era nada mais nada menos que um “PODRÃO”, eu olhei e baixei a cabeça, mas o meu mestre foi ligeiro, ele olhou para o lanche que transbordava maionese verde, e disse:
– Isso é truque baixo, hein, rapaz?! Tentando me ganhar na quantidade, corta o lanche para vermos o que ele tem dentro. – ele falou rindo.
Quando Tonhão cortou o lanche pudemos ver entre os dois pedaços de pães: as duas salsichas cortadas com o hambúrguer embaixo e um ovo frito em cima… com o bacon logo acima do ovo, fora o presunto e a mussarela com bastante batata palha e a alface picada. O mestre dividiu as metades e falou:
– Eu não vou comer tudo isso sozinho, podem cada um pegar um pedaço.
Nós três pegamos um pedaço cada um e começamos a comer, mas não tem o que dizer, esse sanduíche é o cúmulo do exagero… e então, a Flor chegou trazendo um pote de Escondidinho. O meu Mestre arregalou os olhos ao ver e disse:
– Traga três pratinhos para nós todos provarmos, por favor. – um garçom trouxe, enquanto o mestre falava que o pedaço de sanduíche sobre a mesa era dela.
Os pratinhos chegaram… e o Mestre terminou seu chope antes de dividir a porção para nós quatro provarmos. E quando provamos, Mestre Iggy fechou os olhos e saboreou, porque realmente estava bom, o purê de mandioca temperadinho combinava perfeitamente com a carne seca. E o Mestre disse:
– Vocês fizeram os seus pratos por “Amor”, não foi?!
Os dois e eu nos surpreendemos com a pergunta, e o Mestre continuou:
– Tonhão, fala a verdade, você achou que estava com fome e pensou em fazer um sanduíche para eu ficar bem pelos próximos três dias, não é?
– Foi isso mesmo, Seu Iggy!
– A noite está meio gelada, então a Maria Flor, fez um prato para que eu me sentisse quentinho e confortável, não é?
– Sim, Mestre, foi isso.
– E fiquem sabendo que vocês estão certos em buscar o Amor para cozinhar… eu mesmo achei a minha vocação e o Amor pela cozinha quando eu era jovem, na época da escola… havia uma gangue de valentões e a líder era uma garota, e eles infernizavam a escola todo o dia. E comigo era pior, porque ela roubava o meu almoço, todo santo dia… até que vi que os caras da gangue não eram amigos entre si ou dela… e percebi justamente na hora do almoço, porque ela almoçava sozinha. E naquele instante eu tive a sensibilidade de ver que a única coisa bacana que ela teria o dia inteiro era: comer a minha comida! Eu tive que aprender a me virar cedo, porque eu era órfão de pai e minha mãe era Médica e vivia nos plantões, aí eu aprendi a cozinhar depois que percebi a solidão da menina, comecei a ralar e a melhorar os meus pratos para ela… e lembrando agora, até dá uma saudade daquela época.
Nós três olhávamos para o Mestre para absorver aquele momento que era pura poesia, mas o Tonhão não sabe ficar quieto:
– Poxa, Seu Iggy… e a menina infernizava, é? Então deve ter sido um alívio quando o senhor terminou a escola, não foi?
– Meu rapaz… – o olhar do mestre Iggy era de saudade – eu me casei com ela dez anos depois, e tivemos três filhos.

Imagem Gerada com IA
