Pai, eu?!

É, que dia feio! Não gosto de dias nublados, porque bate uma tristeza, uma preguiça…

… ih, a personificação da tristeza acabou de entrar, e sentou no balcão. Até parece que uma nuvem escura de chuva está em cima da cabeça dele. O garçom chegou perto, anotou o pedido e saiu para falar com o chapeiro.

Eu fiquei aqui no caixa, tomando um chá quente de erva-doce para ver se dá uma animada, mas infelizmente o buraco negro sentado no balcão estava sugando luz, felicidade e tudo mais para o seu horizonte de eventos. E sabe quem sentiu isso? A Maria Flor, porque ela SUMIU depois que o tal rapaz chegou.

Tive que ir perto da cafeteira e passei em frente ao rapaz triste, e olhei bem para a cara dele, que tinha uns dezessete anos, e o olhar do sofrimento. A curiosidade foi forte, perguntei:

– Ô, rapaz, você está bem? Que cara é essa? – ele olhou para mim, parecia que vomitaria, e eu fui mais rápido – Vai chamar o Hugo… te levo ao banheiro agora!

Felizmente, Malvino estava por perto e conseguiu levar o rapaz para fora… e sujou a calçada. Meu pessoal levou água com desinfetante para dar um jeito no lugar. Então, quando ele voltou, comecei a falar com ele:

– Você está bem? Quer ir ao médico?

– Não, obrigado, é que estou passando por alguns problemas.

– Mesmo? – falei sério e preocupado – Qual é o seu nome? Você pode dizer do que se trata?

– Meu nome é Gabriel… fiz besteira, engravidei a minha namorada.

É, fez besteira mesmo… pior é que não é o primeiro e não será o último. Voltei a perguntar:

– Sua família sabe?

– Em casa somos eu e minha mãe… e ela já tem problemas demais com o trabalho dela.

– Você tem conversado com alguém a respeito disso?

– Tenho conversado com a minha namorada, mas ela sempre fala que vai resolver… e que não vou ser pai. Tenho conversado na igreja, também… e o Sacerdote fica repetindo que tudo é pecado, que o que a gente conversa e fez é pecado. A culpa não é minha… tudo aconteceu numa festa!

Esse moleque é um irresponsável e esse sacerdote não está ajudando:

– Não é culpa sua?! Conta outra, Gabriel. E os pais da sua namorada. O que eles dizem?

– Não sei… ela não fala para mim.

– Mas você perguntou?

– Não. – ele só respondeu isso.

– É meu caro, você tem que falar com algum responsável, sua mãe, os pais dela. Vocês precisam de orientação. E você não conseguirá nada desabafando comigo aqui, neste balcão de bar. – depois desse papo, tive um misto de emoções, começou com dó e terminou com um de insatisfação, para não dizer raiva.

O lanche chegou, ele comeu, pagou e agradeceu pelo conselho e foi embora… e o dia passou e a memória dele foi arquivada em alguma gaveta dentro da minha cabeça.

Os dias passaram, e adivinha quem apareceu por aqui? Sim, o Gabriel… com os olhos tristes e vermelhos, chegou dizendo:

– Oi, Senhor, lembra de mim? Tudo acabou.

– Como assim tudo acabou?

– A Alice foi numa clínica com uma prima e não falou nada para mim. Eu liguei para a casa dela e não a encontrei, mas consegui falar com o pai dela, e ele não sabia de nada. Quando a encontrou, já havia feito o procedimento… ela ficou brava comigo por ter falado com o pai dela e terminou comigo.

Eu escutei a tudo em silêncio… encostei os cotovelos no balcão e olhei para fora, sem saber o que pensar. Olhei para o Gabriel e ele estava lá olhando para mim, esperando por algo. Então disse:

– É, rapaz, o que você aprendeu com tudo isso? Espero que você tenha aprendido a conversar direito e a não largar nas mãos do destino, porque ele escolhe qualquer final, e não necessariamente é o que é bom para nós. E espero que você tenha aprendido a ser mais responsável, porque se você e sua ex tivessem usado camisinha, nada disso teria acontecido. Certo?!

– É o que minha mãe me disse.

– Viu, gente inteligente pensa igual. – tenho dito.

Imagem Gerada com IA

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