Eu gosto do poder calmante da camomila… muitos não gostam, falam que tem gosto de nada, mas eu discordo. E pelo que estou vendo, hoje eu precisarei desse poder calmante. Eram nove da manhã quando Marquinho entrou pelo Bar Uky, ele tinha o olhar desesperado, e foi na minha direção quando me viu descendo a escada:
– Sr. Arthur… eu preciso da sua ajuda!
– Minha ajuda? O que aconteceu?
– É o Jeberitti… ele foi preso!
– Foi preso? Conte-me mais!
– Nós fomos fazer uma manutenção na Clínica Psiquiátrica, então o Senhor sabe como é o Jeberitti, ele deu uma viajada na história e o médico responsável disse: “esse homem está delirando, internem ele!”… eu tentei explicar, mas não quiseram me ouvir.
Fiquei pasmo, sem saber o que fazer, procurei pelo Malvino para pedir a opinião dele e ele disse:
– O certo é a família entrar em contato com a instituição e pedir uma avaliação… mas no caso do Jeberitti, é melhor levar um advogado também.
– Ih, não vai rolar, – falou Marquinho – a família dele é muito simplória, ela é totalmente dependente dele. Eu mesmo não sei o que vou fazer se ele ficar internado, não terei mais um patrão que me ensina e me paga.
Eu fiquei lá olhando para o Marquinho… e percebi uma lembrança vir à minha mente, mas não vinha e não sei direito o que eu tinha que lembrar, mas eu tinha certeza de algumas coisas: Jeberetti é um bom homem, honesto e trabalhador. Meio pancada, mas quem não é?! Olhei para o Malvino e disse:
– Malvino, eu te mantenho informado… e se não te responder até às seis da tarde, entre em contato comigo. E se você não conseguir, aí você vai lá tentar nos resgatar, ok?!
– Ok, chefe, só toma cuidado. Sabe como esses profissionais da saúde são, observam loucura em tudo. – é, eu tenho que concordar.
Eu e Marquinho saímos do Bar Uky juntos, caminhamos pela calçada até chegarmos nos portões da Clínica Psiquiátrica Maria Piedosa… entramos e fomos até a recepção e então perguntei para o Marquinho:
– Quem nós estamos procurando? Quem é o responsável?
– É o Dr. João Hilário.
– Hilário?! Espero que o Jeberitti não tenha falado do nome do homem.
– Ele pediu para contar uma piada hilária.
– E o Doutor contou?
– Não contou e fez cara séria.
Aposto que o médico ficou muito bravo por causa do seu nome, imagine um monte de gente estranha falando ou fazendo piada do seu nome todo dia… se fizesse isso comigo e eu fosse um médico, também ficaria bravo. Agora vamos ver no que dá! Chegamos na recepção e pedi para a recepcionista:
– Bom dia, eu posso falar com o Dr. João?
– Qual deles?
– Eu desejo falar com o Doutor que é o responsável.
– Ah, o Dr. Hilário… um minutinho, por favor.
Ela que disse, eu vou ficar quietinho!
Não deu dez minutos e o homem chegou… ele não é alto, não é magro e com uma expressão nada amigável:
– Pois não?
– Bom dia, Dr. João, meu nome é Arthur, sou o proprietário do Bar Uky.
– Ah, o bar que o Vicente trabalhou.
– Sim, este mesmo, eu vim aqui a pedido do Marquinho para interceder pelo Sr. Jeberitti.
– O encanador?
– Sim, ele mesmo. Ele costuma aumentar a história, mas é o jeito dele… ele é inofensivo e trabalha bem. Aposto que ele resolveu rapidinho o problema que a clínica teve, não é?!
– Até que resolveu, mas eu não posso deixar um homem delirando vagando por aí!
– Doutor… com todo o respeito: mas louco não é aquele que não pode produzir?! E ele produziu aqui na sua clínica! Resolveu a questão do seu problema e rápido! – me virei para o Marquinho e perguntei – Marquinho, qual era o problema e quanto tempo levou para vocês resolverem?
– Foram dois problemas, um entupimento de ralo no jardim e uma privada entupida na recepção. E levamos menos de meia hora para tudo.
– Viu… menos de meia hora. E aposto que ele encontrou um túnel interligando o jardim com a privada.
Neste instante, o Doutor arregalou os olhos e eu continuei:
– Doutor, eu sou dono de bar, e ele também a frequenta como cliente… o que mais escuto são as histórias dele.
O médico ficou olhando para mim meio querendo acreditar e meio cético, por fim disse:
– Tá bom, mas eu não quero mais ver ele aqui!
– Sua casa, suas regras. – eu disse.
– Ótimo, venha comigo.
Eu e Marquinho o acompanhamos, seguimos por um corredor até uma escada e subimos um lance dela, para depois andarmos até um balcão, o Doutor pediu para aguardarmos… até que senti alguém puxando a minha camisa, me virei para a direção do puxão e o vi: Vicente, usando o pijama da clínica além de um par de chinelos, ao me ver disse feliz:
– Chefe, é o senhor!
– Vicente, é você! Como andam as coisas?
– Andam bem, chefe, inclusive estou andando para o refeitório!
– Bom para você, Vicente.
– E a minha garota, a Maria Flor?
Caraca ele lembra dela, tenho que pensar rápido:
– Ih, rapaz, ela foi embora… mudou de cidade! – pronto, agora ele esquece dela.
– Ela se mudou! – ele ficou pensativo e depois se afastou, então voltei a esperar o Doutor.
Dez minutos passaram, o Doutor chegou com Jeberitti que ao me ver junto do Marquinho, começou a chorar e falar:
– Oh Seu Arthuri… o senhor veio com o Marquinho me salvar.
– Vim, Jeberitti, e isso teve um preço: você não pode mais voltar aqui.
– Estou sabendo, Seu Arthuri… o Doutore me falou.
Então me virei para o médico e perguntei:
– Podemos ir?
– Sim, mas antes tenho que dar a liberação para vocês. – falou o Doutor.
Ele pegou um papel de formulário com o nome do Jeberitti e assinou que ele estava liberado. Peguei e agradeci e fomos os três embora, no caminho eu falei:
– Jeberitti, como você vai brincar num lugar que nem este? Neste local, qualquer coisa estranha e os caras te colocam uma camisa de força!
– Eu sei, Seu Arthuri, eu aprendi a minha lição.
– Isso, só não esqueça que você não pode voltar aqui!
– Claro, Seu Arthuri. – ele falou com a voz chorosa.
No final deu tudo certo… ele e Marquinho pegaram a combi que estava estacionada e me deram uma carona até o Bar Uky, eu fiquei e eles tomaram o rumo deles.
A manhã continuou passando e chegou o período da tarde, quando vi Maria Flor, não perdi a oportunidade:
– Você ficou sabendo para onde eu fui hoje?
– Fiquei, o Senhor foi na clínica.
– Isso mesmo, e vi seu amigo.
– Meu amigo?
– É, o Vicente. – falei com cara que daria uma risada.
– Ai, Sr. Arthur, ninguém merece. – e ela se afastou para os seus afazeres.
O dia continuou passando, e antes do entardecer, a luz do dia estava diferente, com uma pegada meio feliz, puxada numa cor pêssego, e ela entrou pela porta: Serena… e ela veio na minha direção, com um sorriso no rosto e uma caixinha na mão, se aproximou e disse:
– Oi, Arthur, boa tarde!
– Boa tarde, tudo bem com você?
– Tudo, aqui um presentinho para você! Eu sabia que você não me decepcionaria.
– Te decepcionar?
– É, lembra que eu pedi um tempinho atrás para você ajudar um rapaz com o chefe dele? Você ajudou!
Então a ficha caiu… o que eu queria lembrar e não lembrava, então perguntei:
– Era o Jeberriti?
– Era… aqui, espero que você goste. – ela falou entregando a caixinha.
– Não precisava! – abri e eram chocolates… importados – Quem não gosta de chocolate importado, sirva-se!
– Não, são todos seus. Tenho que ir! Boa Semana. – e ela foi embora… mas como ela soube de tudo? O Jeberitti deve ter contado que eu ajudei, mas… ela sabia que este problema aconteceria. É, vai entender!
A noite chegou… fechamos o Bar e fomos embora. Em casa, eu jantei e fui assistir um pouco de TV, quando eu vi a notícia: um paciente psiquiátrico estava tentando pegar um ônibus na rodoviária para uma cidade vizinha. Ao ver a imagem, eu disse:
– CARACA… é o Vicente!
Disseram que ele estava indo atrás da suposta noiva dele. É… alguns são vigiados demais, outros de menos.

Imagem Gerada com IA
