O Casal

UHÚ… SEXTOU, e não é que tá uma noite bonita! Maria Flor tá lá na frente no balcão dela… Malvino tá aqui do lado só de olho, Tonhão tá falando alto lá na cozinha, todos os garçons estão posicionados, e os clientes da noite de sexta estão chegando… e ela chegou, uma mulher bonita, esbelta com seus 1,75 metro, cabelos curtos. Usando um tênis, daqueles de lona, meia branca, calça jeans colada ao corpo e uma blusinha de alcinha na cor champagne. Para muitos um pedaço de mau caminho… para mim uma Deusa.

Eu a vi conversando com Maria Flor sobre um lugar discretamente bom, elas foram até ele e ela sentou, e antes que Maria Flor saísse, a cliente segurou na mão dela e olhou na sua face e agradeceu… de forma genuinamente grata que nunca vi cliente algum agradecer. Maria Flor se afastou, com um sorriso feliz no rosto, como uma criança que acabou de ser elogiada por algo bem-feito. E ela não foi a primeira a ter essa reação, o garçom que veio depois oferecer uma bebida também ficou do mesmo jeito… e sabem o que ela pediu: gelo, água com gás e groselha. É, a noite está interessantemente quente.

O lugar que ela sentou é uma mesa para dois, afastada da porta, e ela sentou de costas para ela… parece que ela está se escondendo, vai entender! O tempo passou, e chegaram mais clientes e, em seguida, os clientes que chegaram de tarde já estavam indo embora. Uma hora e meia se passou, ela estava na sua terceira garrafa de água com groselha. Mas ela não estava ansiosa, brava ou irritada, ela apenas estava lá, com um sorriso discreto no rosto… e eu com sangue fervendo por ver uma mulher bonita estar esperando. No meu tempo não existia isso. Fiquei com dó, fui até a cozinha e fiz um pedido para o Tonhão… voltei de lá com uma porçãozinha de minissanduíches de peru e ricota. Cheguei ao lado dela e disse:

– Boa noite, tudo bem? Percebi que a Senhorita está esperando um pouco demais… então eu trouxe para você!

Ela olhou para mim com os olhos mais lindos que alguém poderia ver, azuis como o céu límpido depois de uma tempestade, sorriu e disse:

– Oi, Arthur, não precisava, mas obrigada pela sua gentileza… por favor, sente-se.

Ahhh, me sentei, farei o favor para o pateta em fazer sala para ela… e depois falarei um montão! Coloquei o pratinho à frente dela, ela olhou com contentamento e disse:

– Você sempre faz isso, não é, Arthur… aparece quando algo não te agrada.

– É… eu sou o dono do Bar, tenho que tomar conta de quem está aqui, cliente ou funcionário.

– Sim, como você fez com o Lisandro, não é?

– Lisandro?!

– Sim, o garotinho que entupiu a sua privada e, apesar disso, ele ganhou um copo de suco.

– Lembrei… e depois mandei fazer desenho para colorir e aquilo nunca mais aconteceu. Pena que não tem solução para mãe chata que briga por um suco.

– Ela tem os problemas dela, por isso que tem aquele comportamento… um dia, os três vão se entender.

– Os três?

– Sim, o Lisandro e os pais… teve também a vez do rapaz que havia perdido a paquera dele… o Artur.

– É… ele era muito pamonha.

– Sim, ele é… mas ele e a moça já se relacionam e há a possibilidade deles se casarem. O seu conselho de levar presentes para os pais funcionou.

– Legal… eu fico feliz com isso. – mas então me veio um estalo e perguntei – Só uma dúvida, como você sabe disso tudo?!

Ela apenas sorriu para mim, e depois percebi um rapaz parado ao meu lado, me virei para ele que se curvou como um cumprimento, me fazendo levantar:

– Boa noite, – ele disse – espero não ter demorado muito.

– É, você demorou mesmo! – ah, eu tinha que pegar no pé dele.

– Está tudo bem, Arthur… se ele demorou é porque teve um motivo. E ele sempre chega na hora que tem que chegar.

– Mil desculpas! – disse o rapaz, que era bem-apessoado… mais de 1,80 metro, de esporte fino, cabelos castanhos… e nem olhei para os olhos, porque é esquisito falar de olho de marmanjo.

– Tá certo! Então, o que você deseja beber? – é, já que ele pediu desculpas, por que não atender bem?!

Ele olhou em volta e disse:

– Um chopinho está de bom tamanho.

– Deseja comer alguma coisa?

– Uma porção de pastel misto está ótimo!

– Perfeitamente. – e quando me afastei para levar o pedido pude ouvir enquanto ele sentava:

– Não lembrava do Arthur tão superprotetor.

– Ele é o que teve que ser. Alguém que não quer ver os outros passando pelo que ele passou. Ele teve que esperar e engoliu muito sapo… e agora ele está aqui como tem que estar.

– Sempre amei esse seu jeito de falar… como quem esclarecesse as coisas.

Ela sorriu, e ele continuou:

– Você está diferente!

– Estou feia?

– NÃO… você nunca está feia! Você está linda, de um jeito diferente!

– Sei, você me queria ver de saia e cabelão comprido? – ela falou dando uma risada gostosa, que encheu o Bar.

– É… eu imaginei em te ver do jeito tradicional, então, está sendo maravilhosamente agradável de ver a Serena na versão nova.

Ela sorriu como se o sol tivesse nascendo, e ele continuou:

– Você poderia voltar para mim, não é?! Eu sinto tanto a sua falta.

– Eu não posso, Mateo, enquanto não resolver a questão dos seus “amigos”. – e ela fez sinal de aspas com as mãos quando disse amigos – Tudo estava bem quando nós dois criamos tudo, então, um dia, decidiram tirar a parte que me cabia. Agora eu só posso voltar se devolverem o que é meu.

– Eu me esforcei para mudar a opinião deles… mas não quiseram me ouvir. Eu tenho que esperar por pessoas que ouvem mais do que falam. E isso ainda não aconteceu, mas já está mudando.

– Eu sei que está mudando… e eu esperarei até isso acontecer. – ela se levantou e foi até ele que estava sentado e beijou a sua testa, e ela se virou na direção da porta.

– Não vá, fique mais um pouco. Até eu terminar o chopp e terminarmos de comer os pastéis.

Ela se virou para ele e continuou:

– A sua proposta é tentadora, mas eu sei que você fará de tudo para este chopp e estes pastéis durarem para sempre.

– É, para sempre não é muito tempo, não é?!

– Para essas pessoas e esse lugar é. Não é?! – ela devolveu a pergunta com paciência e com um sorriso.

– É, você está certa como sempre.

Ela se levantou e veio na minha direção com as mãos abertas querendo pegar as minhas. Eu as peguei, eram mãos macias e calorosas, e eu disse:

– Deixa que eu cobro tudo dele… ele que chegou atrasado, ele que pisou na bola, ele que pague.

– Sr. Arthur, por favor, não pegue pesado com ele… parece que não, mas ele já é muito atarefado.

– Ok, farei isso só porque você me pediu!

– Obrigada. – e mais uma vez vi um genuíno sorriso de gratidão.

Eu a soltei e ela foi para porta. Ao encontrar Maria Flor, ainda pude ouvir ela dizer:

– Flor, não tenha medo de caras feias… seu futuro será lindo e grandioso. A gente se vê.

Maria Flor a abraçou e disse:

– Obrigada, linda… a gente se vê!

E ela… foi embora.

Enquanto isso… Mateo terminou de comer os pastéis com o chopinho. Olhou para mim fazendo o sinal da conta. Levei para ele e disse:

– É, rapaz, ela é uma mulher e tanto. Você não está perdendo tempo para tê-la ao seu lado?

– Sr. Arthur… tempo é algo relativo. Ela vai voltar para mim, mas eu tenho que consertar as coisas e isso infelizmente leva tempo. Mas eu peço um favor… continue com seu bom atendimento. E tudo bem de, de vez em quando, falar a verdade na cara de alguém.

– Você sabe o que falam sobre a verdade, não sabe? Que ela é que nem supositório e ninguém gosta de tomar um.

– Estou sabendo… e mais uma vez obrigado.

Ele me pagou em dinheiro vivo e também foi embora. Uma coisa engraçada aconteceu depois que eles foram embora, parece que a luz do salão havia diminuído… e por um instante ficamos admiradamente tristes.

No final da noite, Malvino veio conversar comigo:

– Chefe, que casal era aquele?

– Um casal que quer se encontrar, mas não consegue… vai ver a vida deles é complicada.

– É, sei lá… só achei que o Senhor foi muito bravo em papear com o rapaz daquele jeito. Ele tinha um olhar intenso, o Senhor não percebeu?

– Não… e eu vou ficar olhando para olho e olhar de marmanjo… Malvino, para com esse papo esquisito!

Ele riu, e eu também, fazendo-o voltar para o seu canto e eu para o meu fechamento de caixa.

Epílogo:

Dois mil anos passaram, e o templo da Igreja do Sagrado Casal finalmente é aberto, há muitas pessoas para visitar o templo, os rituais acontecem de hora em hora. Sacerdotes, peregrinos e devotos vêm e vão para todos os lugares. Toda hora há alguma empresa de mídia filmando e fazendo entrevistas, e no final da tarde, enquanto o sol se punha, o Gran-bispo está no jardim suspenso do templo para um pronunciamento:

– É com muita alegria que acabamos com um erro de mais de seis mil anos, onde diziam que o Poderoso havia criado tudo… mas, na verdade, ele não estava só, ele estava com uma companheira, são eles: O Poderoso que pode tudo, e a Mestra conhecedora dos segredos que permeia o mundo. Aproveito para informar que outros templos estão sendo abertos nos diversos planetas da Federação e nas estações espaciais.

Já é meia-noite e Serena está parada em frente a grande estátua do templo, onde o Poderoso segura a mão da Mestra, então ela sente ele a abraçando por trás, em seguida ele dá um beijo na bochecha dela, ela segura os braços dele enquanto continuam olhando para as estátuas. Então ele diz:

– Não se parecem com a gente, mas vão ganhar nota oito pelo esforço.

– É, você tem razão! – ela disse com um sorriso.

– Desculpe por ter demorado tanto!

– Tudo bem, eu te perdoo.

Ela se virou, se olharam nos olhos e se beijaram… um beijo que levou mais de três mil anos para ser dado, e ele perguntou:

– Você vem comigo?

– Sim, hoje eu vou com você! E a partir de hoje eu vou te chamar de Amadeus.

Eles voltaram a se beijar, e depois ele pegou na mão dela, e os dois saíram como um casal que sempre esteve junto, enquanto que a lua continuava a brilhar no céu. Então ele pergunta:

– Poderíamos ir comemorar.

– Podemos… mas sabe do que eu sinto falta? Do Arthur e da equipe dele.

– Eles estão bem, lá em Casa. Você está com saudade dos sanduichinhos de peru e ricota, não é?!

– Sim, estou.

Imagem Gerada com IA

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