Não é Meu Ex-funcionário

Hoje pela manhã, eu não fui para o Bar Uky, fui para um lugar não muito agradável… um cemitério. Estou indo porque me obrigaram. O maitre, que trabalhou há muito tempo atrás na taverna do meu pai, morreu. E o meu pai me infernizou para a ir ao funeral, e eu nem gostava desse cara. Desde crianças, eu e meu irmão ajudávamos na taverna do meu velho… era bacana, até que o “Sr. Plínio” foi contratado. Uma nuvem de chuva o acompanhava, onde quer que ele fosse… e não sei o porquê, mas parece que ele não ia com a minha cara. Bastava eu espirrar diferente que ele corria para contar para o meu pai que eu tinha espirrado e diferente. E não importa onde eu fosse ajudar, eu tinha que ficar quieto, não podia falar nada… porque aos olhos dele isso só atrapalhava.

E todo mundo tinha bronca do Sr. Plínio, menos Almir, meu irmão. Pareciam casca e miolo do mesmo pão, pelo que eu percebia um gostava da companhia do outro, inclusive meu irmão se tornou aprendiz do Plínio e eram raras as vezes que ele implicava com o meu irmão… só agora que percebi que eu ainda chamo ele de Senhor, talvez seja a minha criança interior se esforçando para mostrar respeito. Ou ela ainda está amedrontada… e eu não tenho que estar, porque não sou mais aquele guri e já tenho mais de meio século de vida… depois de uns anos ele saiu da taverna do meu pai, e mais alguns anos depois eu o encontrei numa feira de equipamentos de bares e restaurantes, era quando eu iniciava os planos para abrir o Bar Uky. Foi muito esquisito, ele veio falar comigo, como se fôssemos amigos de longa data, querendo ficar do meu lado sorridente… e eu fazendo aquela cara de desconfiado, até que uma hora eu dei um perdido nele.

No cemitério encontrei várias rostos familiares, todos foram educados e eu retribuí a educação… é, temos que ser civilizados. Vi o homem dentro da última morada dele, e eu estava quase indo embora quando meu pai e irmão chegaram. Meu pai ao me ver veio até mim e perguntou:

– Você viu o Sr. Plínio?

– Primeiramente bom dia, não é? Sim, eu já vi o “seu amigo”, e parece que ele está muito bem acomodado no lugar dele. – e estava mesmo, lá deitadão.

– Você é fogo, não é? Não respeita ninguém!

– Cá entre nós, ele era seu amigo e do meu irmão… e os demais, onde eu me incluo, não suportávamos esse cara! – isso era verdade, eu quis deixar isso bem claro.

– Amigo? Não sei de onde você tira essas coisas, ele era meu e seu funcionário.

– Meu funcionário?! Não fui eu que contratei aquele patife… era seu funcionário! Ele era amigo de vocês sim, porque só respeitavam vocês dois!

– Para com isso… olha, o seu irmão está abalado com a morte do Plínio.

Dei uma espiada nele do outro lado, e vi que ele estava muito bem, até estava falando animado com um grupo de garçons que já eram aposentados, então voltei para o meu pai e disse:

– O Almir está bem, tá até rindo.

– Está nada, você tem que fazer um discurso, para mostrar que somos gratos a ele, e para acalmar o coração do seu irmão.

Nossa! O que é isso? Quando meu pai está preocupado com o coração dos outros… é, o Almir é filho dele, mas o meu pai nunca foi sentimental, mas ele é muito rancoroso. Então, eu disse o que eu acredito:

– O Almir parece muito bem, e eu não tenho o que falar do Plínio. É meu irmão quem tem que agradecer, porque os dois se davam bem e tinham muita reciprocidade… e eu já vou embora.

– Não vai, você vai fazer o discurso.

– Discurso nada, tenho que ir para o meu bar.

– Eu e seu irmão estamos aqui, nós também tínhamos que estar na taverna. – falou o meu velho, querendo mostrar que todos estavam no mesmo barco.

É, viram porque eu saí da taverna… mas nesse instante tive um estalo. Lembrei de um texto que li há algum tempo atrás, e eu pensei:

“Se eu aceitar, tem que ser do meu jeito.”

Meu irmão chegou, e ao vê-lo perguntei:

– Você está bem?

– Estou, e você? – meu pai não me deixou responder, já foi falando:

– Falei com o Arthur e ele vai fazer o discurso.

– Olha só… quem tem que fazer o discurso é o Almir.

– Não… vai ser você!

– E o que eu falo?

– Não sei, se vira! – essas eram a palavras que ele dizia quando queria se livrar de algo. Se o resultado agradasse, era a sua obrigação, se não agradasse, a culpa é sua. É… vai ser do meu jeito.

Me afastei com o celular na mão e procurei pelo texto: Outras Pessoas, do Neil Gaiman… e, assim que achei, começaram os discursos. Um por um subiu num púlpito e falaram. Muitos, por serem pessoas simples, disseram palavras comuns com sentimentos. Outros tentaram falar bonito, mas soaram cafona, e aí chegou a minha vez de falar, e o Sr. Ivan, meu pai, estava com aquela cara de “Vai logo!”. Subi no púlpito, olhei em volta e disse:

– Não gosto de mentir, e temos que falar os nossos sentimentos… eu não tenho palavras minhas para dizer, então lerei um texto. – então me pus a ler.

Quem leu esse conto, sabe que ele é sobre carma e egoísmo… e é um looping. Logo que iniciei a leitura, alguns fizeram cara de espanto. Os mais puxa-sacos começaram a fazer cara de nojo… e quando terminei e olhei para todos, percebi que a viúva estava chorando, voltei para o microfone e disse:

– Perdão se não agradei, mas era o meu sentimento! E sei que tinham pessoas melhores que poderiam ter feito um discurso bacana.

Desci do púlpito, e vi Ivan se aproximar com a sua cara terrível e brava, e antes que ele tocasse o meu ombro com sua mão pesada, consegui dar um tapa nela, fazendo com que ele levasse um susto, e eu disse:

– A culpa é sua, era para o meu irmão ter ido lá na frente, mas você não sabe ouvir, não é?! – fui me afastando de costas, para não perder o contato visual com ele. Por fim, fui embora.

Nota do Autor:

Caro leitor, caso você não tenha percebido, o mundo do Arthur não é o nosso mundo, ele é algo parecido com o nosso… incluí o texto do Sr. Neil Gaiman porque se encaixava bem na narrativa. Caso não conheça e queira ler, você encontrará nesse link:

https://www.universodosleitores.com/2014/01/os-outros-de-neil-gaiman

Apesar do nome ligeiramente diferente, é o que foi citado pelo Arthur.

Muito Obrigado.

Imagem gerada com IA

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