Preparei meu chá, maça com canela… depois peguei um copão de quinhentos mililitros, coloquei gelo até a metade, uns pinguinhos de adoçante e toquei o chá para dentro. É, fica refrescante. Depois fui para a minha salinha, sentei, liguei o computador… estou pensando em fazer uma comunicação para esses dias de calor, para o pessoal curtir algumas bebidinhas refrescantes com um petisco praiano. Vinho gelado com patês, ceviche, e vários tipos de carpacio… vamos ver o que a Maria Flor vai achar da ideia. Geralmente ela curte e dá mais sugestões.
Ela chegou depois do almoço, como de hábito, entrou na minha sala, sentou deixando o seu squeeze vazio na sua frente. Perguntei para ela:
– Você aceita? É chá de maça com canela!
– Aceito. – geralmente ela responde com “por favor”, mas desta vez foi só um “aceito”. Olhei para ela e percebi que ela não estava bem, então perguntei:
– Aconteceu alguma coisa?
– Aconteceu, – ela disse desabando em chorar – é o meu pai… ele me chamou de perdedora, falou que serei funcionária para sempre… que o senhor me contratou por pena, porque meu trabalho anterior estava quebrando.
Nossa… que paulada! Vamos por partes, peguei o squeeze que ela trouxe e preparei o chá do jeito que ela gosta. A deixei chorar para se aliviar um pouco… ao entregar a bebida, enquanto ela ainda chorava, eu perguntei:
– O que o seu pai faz?
– Ele é advogado… e parece que para ele os outros só prestam se forem advogados!
– É, mas você sabe que não é assim, certo? Cada pessoa tem seu valor… vou te falar uma coisa que aprendi vivendo, todo mundo tem uma equação dentro da própria cabeça para explicar a vida, para ser feliz e para entender o destino… a equação do seu pai deve fechar o cálculo provando para ele que para ter sucesso precisa ser advogado, já que ele deve ser um bem sucedido.
Ela balançou a cabeça positivamente, e eu continuei:
– Talvez o que falte para ele é lembrar que ele já foi jovem, que teve dúvidas dele mesmo e que todo mundo tem seu ritual de passagem… você pode me dizer qual foi a profissão do seu avô?
– Meu avô? Ele foi alfaiate.
– UM ALFAIATE, … – falei alto quase gritando – … ele está vivo?
– Sim, ele está.
– Já pensou em conversar com ele e perguntar como era quando o seu pai tinha a sua idade? Talvez o seu avô possa ser um grande aliado do que você deseja. Ele era um bom alfaiate?
– Ele ainda é, e tem uma clientela que não o abandona por nada.
– Viu, conversa com ele.
E Maria Flor ficou ali olhando para mim, com o rostinho tranquilo e admirado com uma expressão, “Por que eu não pensei nisso?”, e para finalizar a questão eu disse:
– É, a equação do seu avô diz para ele ser alfaiate. Você tem que ver como a sua equação vai te dar a resposta… e eu sei que você vai chegar num resultado adequado, porque você é esforçada e inteligente. Você falou pro seu pai que eu tive que aumentar o seu salário umas três vezes?
– Não, eu não falei.
– Então você deveria falar.
Então tudo pareceu se encaixar, e ela ficou com o semblante tranquilo, então eu lembrei, abri a minha gaveta direita que tinha bombons e peguei três, um para mim e dois para ela, um docinho sempre relaxa. Ela tomou um gole do chá e pudemos voltar ao trabalho.
Uma semana depois, ela veio acompanhada do Sr. Henrique, seu avô, que sentou no balcão depois de apresentado. Começamos a conversar enquanto ela levantava o estoque:
– Muito obrigado, Sr. Arthur, obrigado pela conversa com a minha pequena. Meu filho, o Régis, pode ser um pouco difícil e intransigente. Os dois irmãos da Maria são advogados e trabalham com o pai, ela foi a única que o enfrenta para seguir outro caminho. Eu moro aqui perto, e quartos é o que não faltam em casa, então ela vai passar um tempo comigo e com a avó, assim o pai não a incomoda.
– Ah, que bom, fico feliz por ela… parece que não, mas eu sei como que é viver com um pai como o Régis. Por acaso, a sua neta te disse que aumentei o salário dela três vezes?
– SIM, – ele respondeu empolgado – eu fiquei orgulhoso dela, e pensar que o pai dela chorava porque ganhava pouquíssimo nos estágios!
Nesse instante foi instantâneo, nós dois rimos! Então o avô disse:
– Ela é o meu orgulho!
– É o meu também.
– Sr. Arthur, o senhor usa terno? Está precisando de um conjunto?
– Até que estou, quanto que custa em média?
– Para o senhor, nada! – respondeu Henrique.
– O que o senhor gosta de beber?
– Eu gosto de beber vinho tinto.
– Ok, então eu levo uma caixa de vinho quando for na alfaiataria do senhor.
– Fechado. – assim disse Henrique, e então, apertamos as mãos.

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