Dois Lacaios Entram Num Bar

Alguém aceita um chazinho gelado? Eu mesmo que fiz, hortelã… está muito refrescante. O legal é que a Maria Flor entrou na minha onda, está com um squeeze lotado de chá e gelo, e ela não larga ele por nada… essa menina é meu orgulho!

Olha só, dois engravatados acabaram de entrar e estão vindo na minha direção, o mais velho tem cara de chefe, chegou até mim e perguntou:

– Por favor, o proprietário está?

– Quem quer falar com ele?

– Eu sou da Yeahh Foods! – falou como se fosse uma autoridade entregando o cartãozinho de visita, e seu nome é Victor Macodda… nominho mais esquisito.

– Então, Sr. Victor, o senhor marcou horário?

– Não marquei, já que não tenho o telefone dele e não sei quem ele é!

– É que ele não compra de vocês.

– É, eu sei disso e eu vim aqui para reverter isso.

– Você tem certeza? Muitos vieram antes de você e falharam.

O engravatado olhou para mim, como se quisesse analisar a minha alma e um minuto depois disse:

– Você que é o dono, não é?

– Será que eu sou? O que faz você acreditar nisso?

– É porque até agora você não se levantou para chamar o proprietário, e tem outra coisa, a forma que você fala comigo.

– É, você está certo, Vitão, vamos subir para a minha sala… vocês aceitam café?

– Sim, aceitamos. – falou o Vitão como se já tivesse feito a maior venda da vida. Olhei para Maria e disse:

– Oi, Flor, leva dois cafés lá para cima, por favor. – peguei a minha caneca e fui na frente para mostrar o caminho.

Subimos pela escada até o andar de cima, entramos na sala, e das três cadeiras que estavam para as visitas, puxei uma para estar ao meu lado, para Maria Flor sentar. Me virei para os visitantes e disse:

– Por favor, fiquem à vontade.

Os dois sentaram, e o mais novo pegou e entregou o seu cartão e o seu nome era Raven Farfell… é, abriram o dicionário de nomes estranhos, vamos ver o que os dois figuras vão falar:

– Você não me falou o seu nome ainda, você não tem um cartão?

– Meu nome é Arthur, e não tenho um cartão. – na verdade eu tenho, mas eu não quero gastar cartão bom com fornecedor ruim.

– Então, Arthur, eu vim aqui para ver o que é necessário para você ser mais um dos nossos clientes… já de cara te falo que a nossa tabela de preço está com até vinte por cento de desconto, e nós também podemos pagar a reforma do seu bar… isso não é interessante para você?

– É… até parece bom. – falei com a voz desinteressada.

– Como assim parece bom? É incrível!

– Não é não… e eu te falo o porquê se você me der uma explicação depois para mim, ok?!

– Tá bom, explico o que você quiser. – assim falou o vendedor, que está prestes a ver uma tempestade.

– Então, Vitão,…

– Por favor, me chame de Victor.

Nesse instante, Maria Flor chegou com os dois cafés, e entregou para cada um deles e eu disse:

– Pode sentar aqui, Flor. – depois me virei para o vendedor e continuei – Então, Victor, o hambúrguer de vocês é esquisito, a carne é pegajosa, a batata depois de fritar logo fica murcha, o refrigerante parece detergente, as hortaliças murcham rápido, os tomates têm gosto de desinfetante…

– Pera aí… você não pode falar deste jeito, isso é falta de respeito com a empresa.

– Falta de respeito? Eu perdi uma chapa de grelhar por causa do seu maldito hambúrguer, ele empesteou o ar e tivemos receio de sermos fechados pela vigilância sanitária… ahhh, vou falar do refrigerante, meu irmão fez a besteira de comprar a Yeahh Cola para a festa de aniversário dos meus sobrinhos, que depois de beberem, arrotaram bolhas como aquelas de sabão! Isso que é falta de respeito!

– Uma coisa não tem nada a ver com a outra! – falou o Vitinho, que eu estava quase jogando lá para baixo.

– Tem sim, tem a ver com respeito ao cliente, e isso eu sei que vocês não tem.

– Temos de sobra.

– Então me explica o que aconteceu no condomínio de vocês… uma família morreu, não foi?

– Realmente isso não tem nada a ver com a nossa negociação!

– Victor, tenta entender uma coisa, está tudo conectado… eu sei que para morar no condomínio de vocês é preciso pagar um dinheiro lascado, então só cliente “Premium” vai morar lá, se eles estão morrendo, imagine o que acontece com um cidadão comum.

O vendedor estava bravo, e eu estava pagando para ver, mas sem querer percebi uma coisa, o assistente tava nem aí para a nossa briga, ele estava olhando fixamente para a Flor, e ele fazia cara de conquistador barato. Eu olhei para ela, estava com o rosto envergonhado com notas de desconforto, então me virei para o tal do Raven e disse:

– Você está secando a minha assistente? – meu sangue que estava fervendo já estava em ebulição.

– O que?! – disse o perdido do Raven.

– Vamos fazer o seguinte… para acabar com a conversa, não sou cliente de vocês e nunca serei. Por quê? Porque não gosto da empresa de vocês e não gosto dos produtos que ela produz… e do comportamento de vocês! Então saiam daqui!

– Não vou sair daqui sem um pedido!

Foi então que ouvi uma voz calma e familiar perguntando:

– Patrão, tá tudo bem?

Olhei para porta e lá estava ele, Malvino… e ele não estava sozinho, Tonhão da cozinha estava junto, segurando um cutelo com a feição séria… caraca, ele está intimidador, o vendedor se virou para eles e depois para mim e disse cheio de si:

– Vou chamar a polícia.

– Pode chamar, fique à vontade, você que é o estranho arruaceiro por aqui. – disse Malvino.

O vendedor parou pensou um pouco, pegou as suas coisas e disse para o assistente:

– Vamos embora desta pocilga. – e desceram pelas escadas, com Malvino e Tonhão atrás deles.

É, o papo com o pessoal da Yeahh Foods é sempre estressante, não são os primeiros, mas torço para que sejam os últimos. Na semana seguinte, um pessoal da polícia apareceu por aqui perguntando o que aconteceu, nós contamos a nossa versão da história, e eles contaram a versão da Yeahh, disseram que foram arrastados para dentro do bar e que eles tiveram que fugir pela vida deles. Felizmente eu tenho câmeras, e provamos que não foi nada daquilo, por fim perguntaram se eu queria fazer um boletim por falso testemunho… e cá entre nós, a tentação foi grande.

Imagem feita com IA

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