Boa Noite, Boa Tarde, BOM DIA… vocês estão bem? Talvez não acreditem, mas o meu Bar Uky já tem uns vinte anos, eu não estive só nesse endereço, estive em muitos endereços, mudei para cá faz uns dois anos. Mas o meu penúltimo endereço não foi tão bom, era numa região com muitos depósitos, então o pessoal que comparecia no bar era para comer prato feito e se embebedar. Haviam noites com briga, além de que não tinha tanto espaço para fazer um cardápio sofisticado. Haviam clientes que queriam que eu fizesse sistema de caderneta, para anotar o que consumiam durante o mês, para pagarem no mês seguinte… no começo achei interessante, mas a maioria dava um jeito para não pagar questionando se o valor final estava certo… mas havia também os que mudavam de emprego e deixavam a conta em aberto. Então, resolvi parar de vender fiado. O show a parte era do meu senhoril, o dono do imóvel… todo final de semestre, ele dava um jeito de procurar algum problema na propriedade para dizer que fui eu quem danificou… a intenção era me multar. Um dia tive uma ideia, negociei uma reforma, e ele me deixou quieto por um ano, mas depois ele voltou pior, tentando me multar pelo ano anterior e pelo novo. Então resolvi ir embora, e fiquei procurando um novo local aos finais de semana, algum lugar legal e com aluguel justo… foi então que achei o imóvel que estamos hoje. Onde já foi uma igreja, dá de mil a zero no anterior… e como vocês já sabem, com um público muito mais educado, que me permite brincar com o cardápio. Sabe o que melhorou também… o nível dos garçons. No endereço antigo, haviam os bons, os que brigavam com os clientes, e os que brigavam com os clientes e comigo… felizmente isso é passado! E mais uma coisa, eu não conheceria Malvino e a Maria Flor no endereço antigo. Tonhão veio trabalhar comigo um pouco antes de mudarmos, ele era conhecido do primo do irmão da tia do cunhado do segurança que vinha almoçar durante a semana.
Mas o melhor foi ter me livrado do Jurandir, que vinha uma sexta-feira sim e outra não… ele bebia e depois ficava chorando no balcão… ele reclamava da mulher dele, e contava:
– Poxa, Seu Arthur, a minha mulher sempre desconfia de mim… um dia eu lavei a louça, e ela perguntou: “O que foi que você quebrou?!” No aniversário dela eu estava inspirado, resolvi dar flores para ela três vezes ao dia, sabe o que ela me perguntou? “Tá me traindo com quem?”! Mas o pior foi no domingo que resolvi fazer o almoço, e fiz um rango bem gostoso para ela, e ela perguntou: “Você aprendeu essa com a sua amante do prato feito que você frequenta?”… seu Arthur, não sei o que fazer!
– Já pensou em separar? Como você vai se relacionar com alguém que não confia em você?! – eu fui sincero.
– Mas eu a amo! E se eu me separar, onde eu arrumo outra mulher?
– Onde você arrumou ela? – tive que perguntar.
– Arrumei lá no Café do Centro!
– Então volta no Café do Centro, vai que você arruma outra!
– Não vou conseguir, porque fechou… e tem outra coisa, eu não tenho tempo!
– Não tem tempo? E o que você está fazendo aqui?
Nesse instante ele olhou para mim com aquela expressão assustada de “é mesmo!”. Mas o pior foi ele contar para a mulher dele o nosso papo. E não é que ela apareceu por aqui para quebrar o barraco… e eu fiz o que? Fiquei quieto para ela terminar logo o assunto… e achei engraçado porque ela não confia nele, mas veio brigar, como ela mesma diz: “o conselho absurdo dos dois se separarem”. É, talvez os dois se mereçam, e ela terminou falando:
– Nunca mais ele vai vir beber aqui!
– Nem sei porque a senhora deixa ele sair! – indaguei.
E aí os dois ficaram lá parados olhando… ué? Falei alguma coisa errada?

Imagem Gerada com IA
