A Conspiração

Olha só quem veio passar a tarde comigo… meus sobrinhos, Breno e Bruno, a dupla da bagunça. Subiram até meu escritório com uma taça de sorvete cada. Sentaram na minha frente, onde já havia dois desenhos para pintarem. Eu tenho que fazer as minhas coisas de escritório também, então joguei verde para colher maduro:

– Aqui, meninos, uma folha de colorir para o Breno, uma para o Bruno e eu também tenho as minhas coisas aqui… então vamos todos trabalhar, certo?!

– Certo, tio! – falaram empolgados pegando os gizes de cera para colorir.

O silêncio imperou por uns dez minutos, até que o Breno colorindo disse:

– Ô tio, o senhor tem medo das pombas?

– Não… não tenho. – respondi preenchendo uma planilha – Por que eu deveria ter?

– Porque elas são câmeras do governo, elas estão aí para vigiar a gente.

– Quem disse isso? Inclusive pombo se come, e a sua avó sabe fazer no forno, com batatas!

– Como é que é? – indagou o Bruno com espanto.

– É isso mesmo, inclusive esse prato é feito com o filhote do pombo… mas é um pombo de fazenda e não um pombo de rua que pode estar cheio de doenças.

– Ai, tio, que nojo. Eu falo desses pombos que ficam aqui olhando a gente. – continuou o Breno.

– É tudo animal, aliás, vocês já viram comendo batata frita?

– Eles comem batata frita? – perguntou Bruno.

– Comem… e engolem de uma vez.

– Mesmo, tio? – perguntou Breno.

– Mesmo… quem disse para vocês que é uma câmera do governo?

– Foi a Dominique, tio. – respondeu Bruno.

– Quem é Dominique? – é, eu tinha que perguntar.

– Dominique é a nossa coleguinha da escola. – respondeu Breno – Ela disse também que os pombos não fazem cocô, eles soltam fluído hidráulico.

– Nossa… de onde ela tirou isso?! Crianças, isso não existe, ok?!

– Ok, tio… mas por que temos que acreditar no senhor? – perguntou Bruno.

– Porque sou adulto, tio de vocês e que satisfação eu teria em mentir?!

Os dois se entreolharam e voltaram a colorir.

Ah, o silêncio… por mais cinco minutos, e então o Bruno soltou essa:

– Na verdade, tio, o mundo já acabou e estamos vivendo uma simulação de computador.

Caraca… o que estão colocando na lancheira dessa gurizada!

– Quem foi que disse isso?

– A Dominique. – respondeu Breno.

– Ela tem irmãos mais velhos?

– Sim, ela vive falando que é a caçula e que tem três irmãos mais velhos. – respondeu Bruno. Pronto, tá explicado!

– Meninos, os irmãos estão brincando com ela, então não levem a sério. Inclusive, não precisa contar que tivemos essa conversa. E quando ela vier falar alguma coisa, escutem, concordem e deixem para lá… um dia vocês lembrarão disso como uma piadinha velha que trará saudades. Entenderam?

– Mais ou menos, tio. – falou Breno – Mas a nossa mãe falou quase a mesma coisa.

– Viram, então vocês têm que seguir a nossa orientação. – olhei para o relógio e disse com jeitão de apressado – Olha só estamos conversando demais e não estamos trabalhando, então, vamos trabalhar!

Os dois que olhavam para mim, se puseram a colorir.

Tive mais três minutos de silêncio, quando Breno falou:

– Tio, já que o senhor não mente, a Fada do Dente existe, não é?!

– Por quê? Vocês já colocaram um dente embaixo do travesseiro? E o que aconteceu?

– Já colocamos… e ganhamos uma moeda! – respondeu Bruno.

– É, eu não tenho que dizer, vocês receberam a prova que ela existe, não é?

– É, tio, mas uma moeda é pouco… poderia ser um pouco mais, não é?! – Questionou Breno.

Estou vendo que a próxima geração para trabalhar na taverna do meu pai está garantida.

Imagem gerada com IA

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