O Puro Suco do Lisandro

É, minha gente… vocês estão bem?! Eu estou derretendo… aqui, tomando um chá de hortelã gelado para ver se refresca, neste dia quente de verão… eu vejo a Maria Flor toda vaporosa de vestidinho de um lado para o outro, e eu suando que nem um camelo, porque tenho que usar camisa, calça e colete… o ventilador de teto não está ajudando muito, ele está no máximo, mas o ar está quente, estou quase comprando um kilt masculino, talvez vocês não saibam, mas quando se usa um kilt, não se usa cueca… apesar disso, o dia está bom, o almoço foi tranquilo e já são quase cinco da tarde, até que entrou uma mãe com o seu filho. Ela carregava uma sacola e tinha um jeitão infeliz enquanto que o filho tinha cara de triste, sentaram numa mesa e um dos meus garçons foi até eles e a mãe fez o pedido:

– Dois baurus e dois sucos de laranja. – ela se virou para o guri assim que o garçom saiu e começou a falar – Estou cansada de você… nunca me ajuda, só reclama, e eu tenho que fazer tudo! Olha esta sacola, você poderia estar carregando ela para mim, mas não… eu que estou com as costas ruins e tenho que levar esta sacola.

– Me desculpe! – disse o garoto com a expressão de que choraria.

– E é sempre assim… você não faz o que eu peço e fica se desculpando!

– É que ela é pesada, eu não aguento carregar por muito tempo.

– Aguenta, eu carregava para sua vó quando tinha a sua idade! Carregava duas, três, as vezes quatro… e não chorava que nem você!

Eu fiquei observando os dois, porque o menino me parecia familiar, e a mãe continuou reclamando:

– Você não limpa o seu quarto e ele é um chiqueiro, você deixa o banheiro todo molhado além de gastar toda água quente. Come todos os biscoitos da despensa, as vezes quero tomar um cafezinho, com biscoito, vou ver… cadê os biscoitos?! Você puxou o folgado do seu pai… – foi então que o garçom chegou com os lanches e os sucos, e finalmente ela se calou.

Eu conheço esse menino, a feição dele… é diferente. Mas a mãe voltou a reclamar:

– Você bebeu o resto do meu suco! – ela disse enérgica, se o salão todo ouvia as reclamações quando chegaram, agora o pessoal da cozinha e da rua ouvia também.

– É que eu estou com sede, e o que sobrou no copo da senhora era tão pouquinho que achei que não queria mais.

– Mas você perguntou se podia tomar?

Lembrei quem é esse moleque… fui até o barman e pedi um suco de laranja. Ele fez em um instante, me entregou, levei-o numa bandeja até a mesa dos dois, coloquei-o sobre a mesa, e isso chamou a atenção da mãe que me olhou assustada e perguntou:

– O que é isso?

– Isso é um suco de laranja, senhora, está geladinho e é por conta da casa.

– Mas eu não quero esse suco! – ela disse num tom irritado, então peguei o suco e coloquei na frente do menino, e disse:

– Agora ele é seu! Você vem sempre aqui, não é, guri?

– É, eu venho com o meu pai e os amigos deles.

– Sei… você já veio no começo deste ano, não foi?

– Sim, eu vim…

– É, você corria de um lado para outro, atrapalhando todo mundo, foi você, né? – ele arregalou os olhos, e a mãe ficou com cara de perdida, e eu continuei, mas estava de boa, não estava bravo, estava querendo que a mãe calasse a boca, e vocês sabem como sou, gosto de me divertir com as situações – Foi você que entupiu a privada com um rolo de papel higiênico!

A reação foi automática, ele fez olhos e a boca de espanto, a ponto de ter que cobri-la, a mãe também espantada perguntou:

– O que ele fez?

– Calma, senhora, isso é passado! Eu entendo ele, era a única criança do recinto, o marido da senhora e os amigos deviam conversar assuntos de adultos e o seu menino se entediou… acredito que teria feito a mesma coisa se estivesse no lugar dele. – não teria, se fizesse meu pai me estamparia na parede de casa, mas eu entendo o menino, ele só quer um pouco de atenção.

– O pai dele é meu ex-marido, larguei aquele traste já faz algum tempo.

– Sim, claro que largou, – me virei para o menino e disse – na próxima vez que você vier, eu terei algo para você se entreter… mas não faça mais aquilo, você promete?! Qual é o seu nome?

– Prometo. – respondeu o garoto – meu nome é Lisandro.

– Você promete mesmo?

– Sim, eu prometo.

– Promete mesmo?! – dessa vez fui mais enfático.

– Prometo, prometo. – disse o Lisandro, já com cara de cansado.

– Então fique esperto, você me prometeu quatro vezes. – me levantei apontei para o suco e falei – Não esquece de beber o suco.

– Não pedi e não pagarei por ele. – assim disse a mãe com feição de que havia perdido algo.

– Claro que não pagará por esse suco, como eu disse, esse é por conta da casa!

– Os lanches e os outros sucos poderia ser por conta da casa também, não é?

– Senhora, não force a amizade… e que eu me lembre, nem amigo a gente é. – neste instante, o garçom entregou a conta para ela, que se levantou em silêncio e foi até o caixa para pagar… e ela não disse nada.

Ela voltou para a mesa depois que pagou, pegou a sacola e seu filho já estava de pé. E, antes de sair, ele olhou para trás, e eu estava lá, olhando para ele, apontei meu dedo com aquela cara de “você prometeu”.

Duas semanas depois, Lisandro estava de volta no Bar Uky, mas desta vez com o seu pai, e sua expressão era de um menino esperto e alerta… e neste dia eu estava pronto, levei até ele uma folha com um desenho sem cor e alguns giz de cera para ele poder colorir. Ele ficou feliz, e o pai dele veio falar comigo:

– Oh, chefe, fiquei sabendo que o meu filho entupiu a privada.

– Está tudo bem, isso já é passado. Ele me prometeu que não faria mais isso, não é, Lisandro?!

– É, e eu prometi quatro vezes.

Imagem gerada com IA

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