Começo de ano é isso aí… balanço de mercadorias, papos longos com o contador, manutenção e reforminhas das instalações. A maioria dos clientes está viajando e então só há um pouco mais de movimento no almoço, e o jantar tenta ser movimentado. Mais tarde, só alguns gatos pingados. O dia estava se arrastando, quando escutei um som de uma voz, que vinha bem ao longe… e foi se aproximando… aproximando… e virou uma algazarra, na frente da pastelaria do Marião, que estava fechada pelo evento de final e começo de ano. Ainda bem, que ele não estava lá, porque se não enfartaria… mas eu, Malvino, Maria Flor… e todos os garçons, ficamos observando o que ocorria. Era um idoso, em cima de um caixote de madeira, discursando com raiva:
– Escute… seus pecadores. Vocês que moram aqui empilhados nesta cidade infernal. Se preparem que o dia do julgamento está chegando, e todos serão julgados: homens, mulheres e crianças… ricos e pobres… altos e baixos… cachorros, gatos e hamsters… não importa a sua etnia e nacionalidade, o que importa é que vocês todos serão sentenciados pelo Todo Poderoso. E ele condenará sem dúvida e piedade, principalmente porque ele sabe que vocês erraram e não se importaram em concertar e pedir perdão… os mais perversos irão para o inferno, principalmente aqueles que cortam e comem a carne do próprio irmão.
Haviam algumas pessoas em volta dele, e o papo estava ficando esquisito até para mim, felizmente Malvino estava ao meu lado, me inclinei de lado para ele e disse:
– Malvino, creio que seja bom falar para aquele senhor ir embora, o que você acha?
– É, patrão, vou fazer isso agora.
– Mais uma coisa, se ele resistir, fale que você chamará a polícia.
– Sem dúvida, patrão, e eu chamarei.
Malvino atravessou a rua e foi até o idoso no meio dos espectadores, eu o vi gesticulando a mão para chamar a atenção conforme se aproximava do velho. O velho viu e ficou prestando atenção no Malvino, até que a expressão dele mudou de brava para espantada. E ele seguiu o Malvino com os olhos enquanto ele caminha na direção do Bar Uky, dois minutos depois ele desceu da caixa de madeira e a plateia se dissipou. É, parece que tudo voltou a normalidade… eu chequei depois se havia ficado alguma sujeira na frente da pastelaria, mas estava tudo normal.
E chegou a hora do almoço que estava tranquila, até que percebi o idoso sentado em uma mesa. É, eu não posso impedir de vir aqui se alimentar… olhei do outro lado do salão, e Malvino estava lá, de olho nele.
O tempo passou, e o idoso veio pagar a sua conta, e ele pagou em dinheiro… olhou para mim e disse enquanto eu dava o troco:
– Você que é o patrão daquele rapaz ali, não é? – falou indicando o Malvino com a cabeça.
– Sou. – é, vocês sabem que gosto de conversar, mas neste caso não é bom estender o papo.
– Você deve achar que sou um louco, um lunático, não é?
– Para falar a verdade, achei que você era um baderneiro.
– Um baderneiro? Eu não estou aqui para fazer baderna.
– É mesmo?
– Sim, estou aqui para abrir os olhos das pessoas.
– É?!
– Você está mangando de mim! – ele falou irritado, as pessoas se irritam fácil hoje em dia.
– Rapaz, o que você faz ou deixa de fazer, não é problema meu… mas se tiver badernando perto de mim ou dos meus, aí eu sou obrigado de me intrometer e não tenho receio de tomar uma atitude.
Ele ficou balançando a cabeça na minha frente e eu fiquei encarando ele de volta, e Malvino estava de olho em nós dois, encostado na parede do outro lado, então o velho disse:
– Tá bom, eu não quero problemas… vou embora. – ele caminhou até a entrada do bar, e, ao chegar nela, se virou e disse de uma vez apontando para mim – Mas eu falei sério, o Todo Poderoso vai julgar todo mundo.
– É mesmo, meu velho, você sabe quando que será isso? Porque se tiver que esperar muito, vai me matar de tédio!
– Você está mangando de mim! De novo! – ele falou vindo na minha direção e eu disse assim que ele chegou na minha frente:
– Eu estava quieto e você estava indo embora, e aí você recomeçou tudo isso.
Então ele parou na minha frente, estava claramente confuso. Malvino já estava atrás dele e um homem com um rapaz apareceram na entrada do bar e o homem disse:
– Pai, finalmente te encontramos. Por onde o senhor andou?
Ele se virou confuso, viu a dupla que entrava e disse:
– Antônio, Carlinhos, o que vocês fazem aqui?
– Nós que perguntamos, o que o senhor faz aqui?!
– Então, eu posso responder a esta pergunta! – falei prontamente levantando o meu dedo indicador, e contei tudo… do discurso, do almoço, e desta discussãozinha, por fim perguntei – O seu pai sempre fez essas previsões de fim do mundo?
– Não sempre, tem começado depois que ele sofreu um acidente. Ele estava voltando do interior com a minha mãe e um caminhão acertou o carro dele com a carroceria. O carro saiu da estrada e bateu numa árvore, minha mãe não teve arranhão algum, mas meu pai ficou em coma por três dias… e voltou deste jeito.
Ele se virou para o pai e disse:
– Vamos ,pai, vamos embora.
Eu e Malvino ficamos observando os três saindo, e quando saíram perguntei:
– O que você achou disso, Malvino?
– Antes da conversa eu achei que ele era um louco qualquer, depois da conversa ele me fez lembrar uma tia, irmã da minha mãe. Ela era muito religiosa, e tinha uns sonhos que falavam do futuro… e parece que isso aconteceu depois que ela caiu de uma goiabeira. Então, chefe, prefiro não responder essa pergunta.
– É, Malvino, você está sendo sensato como sempre… vamos esquecer essa história.
E nunca mais falamos sobre isso.

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