E aêhh…?! Estão sentindo isso? O Espírito do Final de Ano já está aí, mostrando que um outro ciclo está no fim, isso significa que o Tonhão e a sua equipe da cozinha vão trabalhar MUITO! Já fizemos um cardápio com as coisas que o pessoal geralmente pede… peru assado ou mesmo um frangão bem temperado, lombo de porco recheado, paleta de carneiro, tender, salmão assado, bacalhau gratinado… e nesse ano teremos também legumes assados, não posso esquecer do tradicional salpicão de frango, além das tortas salgadas, de palmito, alho-poró, presunto e queijo e de legumes. E agora é só deixar o talão de encomendas em três vias no caixa e esperar. Geralmente nessa época eu tenho dois tipos de clientes, os “Ponta Firme” que encomendam e deixam pago, e, para eles, nós damos a vida para entregar o que foi pedido. E do outro lado temos os “tanga frouxa”, que não deixam pago… e aí é complicado, porque eles encomendam e geralmente não vem retirar. Para eles eu tive que criar algumas regras, eles devem vir aqui até às dezesseis horas, e nós também entramos em contato caso passe desse horário, e a grande maioria não atende. Os pouquíssimos que atendem costumam desistir da compra, e então podemos vender para quem veio comprar durante o funcionamento do Bar Uky, e isso é informado para eles durante a reserva, além de estar nas vias do talão de encomendas. Apesar disso tudo, um tanga frouxa quis brigar, o horário passou e liguei três vezes para o figura, e ele não atendeu, mas apareceu por aqui quando estávamos quase fechando. Chegou com ar arrogante e jogou a via dele na minha frente dizendo:
– Vim pegar a minha encomenda! – falou com tom bravo, peguei a via da encomenda e lembrei dela. Ele havia encomendado dois quilos de salpicão… aí eu fui ver se ainda havia algum salpicão na cozinha.
É… acabou tudo! E naquele tempo o cardápio era menor, tive que falar a real para o consumidor, peguei a via para ver seu nome, que é Chad, me virei para ele e disse:
– Então, Chad, infelizmente não temos mais o seu salpicão.
– Como não tem mais? Eu encomendei direto com você!
– Sim, você encomendou, mas te avisei que você tinha que ter retirado até às dezesseis horas… e apesar disso, eu te liguei três vezes para te lembrar da encomenda, e você não atendeu ao telefone em nenhuma das ligações.
– Eu não tenho que atender a ligação de ninguém! – bravejou o Chad.
– É, você pode se dar esse direito, mas eu tenho a obrigação de não desperdiçar alimento que não foi pago.
– Quer dizer que você vendeu a minha encomenda só porque eu não paguei por ela antes.
– Você sabe que você concordou com isso no momento que assinou a reserva, não sabe?
– Concordei nada! – respondeu o Chad.
– Concordou sim, por isso que há duas assinaturas no pedido de encomenda, um nas regras e outro no valor a ser pago.
O bravão puxou a folha que estava em cima do balcão para olhar, e ficou com os olhos arregalados quando viu as duas assinaturas… então se voltou dizendo:
– Isso não significa nada!
– Opa, nada disso… isso significa tudo.
Nós já estávamos discutindo há algum tempinho, e apesar disso meus garçons não perdiam tempo, já estavam empilhando as mesas e ajeitando as cadeiras… e o Tonhão lavava o chão da cozinha, e ele gritava com a equipe dele para fazerem direito para poderem ir embora, se não teriam que refazer o trabalho… isso tudo era para o “cliente” perceber que o Bar Uky estava fechando… mas ele estava muito concentrado na nossa discussão tentando defender seu ponto, então eu disse:
– Chad, a questão é que não temos mais nada para vender, acabou tudo… e então te pergunto, o que você quer?
– Como assim, o que eu quero?
– É, o que você quer? Porque você não veio no horário, não atendeu ligação, os produtos acabaram e a gente está fechando… então volto a perguntar: o que você quer?
Nessa hora ele olhou em volta e viu um os garçons baixando uma das portas, Chad se virou para mim com os olhos enraivecidos e disse:
– Eu quero chamar a polícia!
– Então chame, e chame logo porque tenho ir logo para casa, minha esposa está me esperando! – falei querendo colocar ele para correr.
– A minha família também está esperando o encomendado! – falou o nervoso.
– Você vai ou não vai chamar a polícia? – agora eu estava com sangue nos olhos – Se você não chamar, chamo eu! – falei com a voz cheia de adrenalina e pareceu que ele levou um susto, porque não esperava por isso. Ele continuou parado, e eu peguei o telefone e comecei a discar, e assim que a telefonista atendeu, eu disse – Boa tarde, aqui é do Bar Uky, eu preciso da ajuda de vocês! Tem um homem fazendo arruaça por aqui!
– Como é que é? Não estou fazendo arruaça não! – Chad disse gritando.
– OPA… isso é só o que você fez! – respondi na mesma altura.
– Já estamos enviando uma viatura, não deve demorar mais que cinco minutos. – falou a telefonista.
A viatura chegou em três, e dois policiais desceram dela, eles entraram na porta que ainda estava aberta e o mais velho perguntou:
– Boa tarde, o que está acontecendo?
Adiantei-me e comecei a falar, expliquei da encomenda, das regras, mostrei o formulário de encomendas, as duas assinaturas e o que estava acontecendo até então, o policial olhou para o Chad e continuou:
– E então, o que está fazendo aqui?
– Eu quero minha encomenda!
– Senhor, não tem o que fazer! Ou senhor se retira ou terei que levar até a delegacia por incomodar a ordem pública.
Chad resmungou, esbravejou, por fim desistiu… se virou e saiu pela porta que ainda estava aberta, olhou para trás e disse:
– Nunca mais volto nessa pocilga! – e foi embora.
Os policias ficaram um pouco mais conosco, e eu ofereci um refrigerante para cada um, eu estava grato e quis demonstrar isso, pude ver na camisa do mais velho que ele era Sargento, e vocês já devem estar adivinhando quem era! Era o Malvino, essa foi a primeira vez que o vi, parece que o destino já estava ajeitando as coisas para ele vir trabalhar aqui.

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