A Log4Work é uma empresa de logística que está presente aqui no bairro, eles fazem entregas para vários tipos de empresas, não importa o segmento de atuação ou o tamanho, em outras palavras, eles são grandes e atendem quase todo mundo. Eu os conheço porque estão sempre por aqui, alguns para a hora do almoço, mas principalmente para as confraternizações à noite. Costumam vir principalmente no final dos meses para fazerem um “happy hour” de aniversário dos funcionários… sabe como é, dá azar comemorar antes.
Numa noite há algum tempo atrás, eu vi um grupinho com umas dez pessoas… pelo que percebi eram gerentes e diretores, estavam trajando social, sem gravata. Estavam com olhar triste, pediram alguns petiscos, cerveja e uma garrafa de whisky de dezesseis anos. Não pediram gelo, pediram copo shot para tomarem o líquido dourado numa única talagada. O mais velho dentre eles retirou o lacre, depois a tampa e encheu o copo de cada um deles… eu já vi este “ritual” na taverna do meu pai, entre os oficiais do quartel da vizinhança, eles faziam isso depois que voltavam de um enterro… esse ritual é chamado de: “beber o morto”. O termo pode ser mórbido, mas o sentimento destas pessoas não é, estão se despedindo… eles sabem que nunca mais ouvirão sua voz com a sua opinião, nunca mais verão seu rosto e não viverão mais uma experiência com ela ou ele. Agora essa pessoa é uma foto na parede, porque, além dela, só haverão as lembranças.
Depois de uma hora, conversando e mais bebendo que comendo, pedi para meu pessoal servir uma garrafinha de água para cada um deles, olharam assustados para as garrafas e para os copos, então eu me aproximei e disse:
– Senhores, são para vocês, para não ficarem ruim por beberem tanto.
– Obrigado, – falou o mais velho, balançando a cabeça num cumprimento e levantando o shot pela metade.
– Vocês estão se despedindo de alguém?
– Como o senhor sabe?
– Já vi esse ritual muitas vezes.
– É, estamos nos despedindo. Qual é o nome do senhor?
– Arthur, e do senhor?
– Meu nome é Edson… ele era diretor do departamento financeiro.
– Meus pêsames, espero que ele tenha ido para um lugar bom!
– O pior não é isso, a família dele também deixou esse mundo. – falou o triste Edson.
– Caraca, foi um acidente de trânsito? – só um acidente para acontecer uma coisa dessas, não é?
– Eles morreram no apartamento deles, não vimos o laudo da autópsia ainda. – depois de responder, ele terminou de tomar o seu shot, bebeu um pouco de cerveja, em seguida tomou um gole da água e tornou a encher o shot com whisky – Tem mais uma coisa, bem estranha, foi o condomínio que providenciou o funeral da família… disseram que estava no contrato, vai entender que contrato é esse?!
O rapaz ao lado do Edson gentilmente tocou seu ombro e disse:
– Chefe, o senhor já bebeu demais… vamos tomar um pouco mais de água?
– Vamos, Carlos… mas antes vamos fazer um brinde! Quem está com o copo vazio?
Ele tornou a encher os shots do pessoal, então levantou o seu e todos levantaram juntos, e com lágrimas nos olhos ele disse:
– Diego, esperamos que você e sua família descansem em paz. – então, todos viraram os shots e bateram com força na mesa. Dava para ver a tristeza pairando no ar.
Uns dois dias depois, vi o Carlos almoçando no salão, parecia melhor do que no dia da despedida, e bati um papo com ele quando veio pagar pela refeição:
– Boa tarde, Sr. Carlos, você está bem?
– Estou… e o senhor?
– Estou bem, obrigado, como está o Sr. Edson? Ele parecia ser o mais chateado do pessoal que esteve aqui na despedida.
– Realmente ele está… o projeto da Log4Work era o trabalho final da faculdade do Edson, o Diego foi um dos primeiros contratados dele, então eles se conheciam há muito tempo.
– Vocês tiveram alguma notícia da autópsia?
– Ainda não, e para falar a verdade, eu duvido que um dia a teremos… a YEAHH Foods é dona do condomínio.
Caraca… agora fiquei sem palavras.

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