Olá, meus amigos! Como vocês estão?
Vocês já devem saber que alguns fatores auxiliam o bar a ter sucesso, a comida, a bebida, o ambiente e o mais importante: o atendimento. Então eu tenho que estar atento a equipe de garçons, e geralmente a coisa flui da forma correta entre nós e os clientes. Como todos nós prezamos pelo bom atendimento, os clientes retornam semanalmente, e todo mundo acaba virando amigo, o meu pessoal e a galera. Uma coisa que tenho baixa é rotatividade de equipe… mesmo assim eu tenho que contratar alguns extras para os dias que terão mais movimento, inclusive vocês devem lembrar que fiz isso no Oktoberfest. Eu tenho um caderninho com nome de garçons, seus celulares e endereços, e eu prefiro chamar quem mora próximo daqui.
Numa segunda-feira um rapaz se apresentou perguntando se tinha trabalho para ele, perguntei onde mora e ele me deu seu endereço, e percebi que é a quadras daqui, bem-apessoado e educado, seu nome é Vicente. Sim, garçons com pouca experiência sempre perguntam sobre trabalho… mas ele aparenta ser mais experiente. Conversarmos, falei quanto que pago por dia e ele gostou do valor, então chamei-o nesta sexta-feira e sábado, para testá-lo. Ele veio, não é que ele trabalha bem?! Paguei no sábado antes dele ir embora e chamei novamente na outra sexta… e depois de mais um final de semana, percebemos que ele estava ficando próximo da Maria Flor. Ficava de risinhos, se esforçava para pegar na mão dela, e vi que ela não dava tanta atenção para ele… mas não foi só eu que percebi. Porque antes de eu ir falar com ele, Malvino já estava falando. Depois aquela situação acabou, porque vi Vicente focando a atenção nos clientes. No final do expediente, enquanto ele assinava o recibo, perguntei:
– E aí, Vicente, como foi hoje?
– Estava indo bem, mas o Malvino veio e cortou a minha onda!
– Que onda?
– Com a Maria Flor, aquela garota me ama!
– Certeza disso? É, no trabalho tem que trabalhar, nada de namoricos, entendeu? – não gostei muito sobre a afirmação dele com Maria flor.
– É, entendi.
– Que bom que você entendeu – a real é que não senti firmeza nele – como de hábito, eu te ligo se precisar de você na semana que vem, ok?!
– Ok, Senhor Arthur.
Chamei Maria Flor assim que ele saiu e perguntei para ela sobre o Vicente, e ela falou que não tinha nada com ele e que o via como um amigo de trabalho, um pouco pegajoso demais. É, a história não bate. Chamei Malvino, ele falou que percebeu que ele estava mais interessado nela do que nos clientes, que ele ficava de papinho enquanto que os clientes ficavam esperando para serem atendidos. É, o rapaz durou o tempo dele, melhor não chamá-lo mais.
Duas semanas depois, um médico apareceu por aqui, eu sei porque ele estava com o crachá daqueles bem grandes no seu peito. E para falar a verdade, eu já havia visto ele por aqui. Ele almoçou e eu estava no caixa, na hora de pagar ele veio e me perguntou enquanto eu passava o cartão de débito:
– Tudo bom, chefe? Você conhece o Vicente?
– Vicente… o garçom, ele trabalhou alguns dias para mim. Por quê?
– Ele trabalhou aqui? – o médico arregalou os olhos.
– Trabalhou, chamei ele em três finais de semana. Por quê? Aconteceu alguma coisa?
– Então, ele é um paciente da clínica psiquiátrica a três quadras daqui… a Clínica Dona Maria Piedosa.
– Ele é paciente? É sério? – meu queixo está no chão.
– Sim, ele é e toma medicação pesada porque tem delírios da realidade. Qual foi a última vez que ele trabalhou aqui?
– Foi há duas semanas, ele era da equipe da sexta e sábado, ele estava mais interessado na recepcionista do que nos próprios clientes.
– O nome da moça é Maria Flor, não é?
– É esse mesmo… foi ele que disse?!
– Foi, e para ele, os dois já eram noivos.
– Como é que é?! – agora é minha cara que está no chão.
– É isso mesmo, eu estou aqui para averiguar o que aconteceu, porque nem o pessoal da segurança percebeu a fuga dele dos dormitórios.
– E agora? – acho que vou tomar chá de maracujá.
– Agora estamos ampliando a nossa estrutura de segurança, revendo a medicação dele para que isso não aconteça mais. E pedimos desculpa pelo ocorrido.
– Só uma pergunta, ele é uma ameaça?
– No momento não, ainda bem que o senhor percebeu algo de errado e não chamou mais. Pessoas como ele costumam perseguir e assediar as pessoas.
Entreguei o comprovante dele, ele me agradeceu e me pediu desculpas pela segunda vez e foi embora.
Chamei Malvino assim que passou a hora do almoço, contei a história para ele. E ele pareceu comigo há duas horas atrás. Ficou com os olhos arregalados e a bocona aberta, e depois ele deu a sugestão para eu passar os dados do pessoal para ele dar uma pesquisada nos antecedentes. Eu não achei a ideia ruim.
Quando vi Maria Flor, eu disse:
– A noivinha chegou!
– Noivinha?! Nem namorado eu tenho!
– Eu sei… mas a missa você não sabe a metade!
– O que eu não sei?
Então contei tudo para ela, que o ex-coleguinha é paciente de uma clínica psiquiátrica aqui perto, que ele não deveria ter saído e que tomaram medidas para que isso não acontecer mais. Falei também que o Malvino se prontificou a pesquisar sobre o pessoal… ela inicialmente ficou assustada, mas acalmou. Disse-me que quando vai embora, ela sempre vai acompanhada dos garçons do mesmo horário, porque ela mora no caminho deles. Perguntei se o Vicente sabe onde ela mora… ela disse que não, que nunca havia tido uma conversa dessas com ele. Depois que ela saiu, fiquei me perguntando o que acontece com o cérebro de algumas pessoas. Porque vivemos a realidade que enxergamos dentro de nossas cabeças, enquanto que outros querem que vivamos a realidade que eles enxergam… sei lá… isso é muito bizarro.

Foto feita com IA
