Saudações… tudo bem com vocês?! Perceberam que há um funcionário que é pau para toda obra no Bar Uky? É o Malvino, sobrenome Malvadeza… e ele não é necessariamente malvado, ele tem um olhar que deixa qualquer um desconcertado, achando que ele tem terceiras, quartas ou até quintas intenções. Para começar ele já foi da polícia, ele patrulhava o bairro, diz a lenda que ele sente cheiro de meliante a quatro quarteirões de distância. Ele almoçava por aqui, um dia sim e o outro não… e às vezes ele vinha com os colegas a noite para tomar uma cerveja, principalmente de sexta ou sábado… nesses dias eu sabia que estaríamos seguros, porque nem todos bebiam ou exageravam na dose, somente os mais antigos que viram coisas demais.
Em um dia nublado, lá estava Sargento Malvino almoçando com uma cara meio cansada, ao vê-lo no balcão perguntei:
– Boa tarde, Sargento, aconteceu alguma coisa?
– Boa tarde, Sr. Arthur… são algumas coisas que estão acontecendo no meu batalhão.
– Mesmo? Você deseja falar sobre esse assunto?
– O nosso Capitão foi promovido para Major e foi para outro batalhão. Estamos com um novo Capitão que está mais atrapalhando do que ajudando!
– Ele também foi promovido recentemente?
– Ele foi promovido há três anos e é atrapalhado mesmo… mas esse é o procedimento do Comando Central, fazer os outros pegarem no tranco, em vez de colocá-lo em um bairro mais tranquilo para aprender de uma forma mais calma.
– Talvez deveriam ter feito um curso antes de promovê-lo. – eu falei sem saber como funciona.
– Ele passou a Capitão por tempo de serviço, não há curso. – agora eu sei como as coisas funcionam.
– Vamos torcer para o seu oficial encontrar o caminho.
– É… vamos, mas a equipe já está prestando atenção nele, todos vão mudar de batalhão caso ele não melhore. – ele falou com muita certeza, não duvido disso acontecer.
Ele terminou de almoçar, as horas passaram e depois o dia, junto com a memória dessa conversa.
Alguns dias depois, na hora do almoço, uma pessoa que não se encaixava no ambiente, apareceu por aqui. Ele sentou em uma mesa de frente para a porta, pediu um refrigerante e ficava observando. Usava trajes sociais, que não é problema algum, mas o olhar dele era de arrogância e desconfiança e isso chamava a minha atenção… parece que ele está esperando alguém. Meia hora depois ele pediu uma refeição e mais um refrigerante, comeu e bebeu sem piscar os olhos da entrada do bar. Terminou de comer, pediu um pudim e depois um café… e esperou mais meia hora, pediu a conta e foi embora. É, parece que ele ganhou um bolo. Ele apareceu, de novo, na sexta-feira depois das oito da noite, sentou na mesma mesa e ficou olhando de um lado para o outro… pediu refrigerante e batata frita só vinte minutos depois. Esquisito… ele beberia cerveja se estivesse esperando seus amigos… ou ostentaria uma dose de destilado caso estivesse esperando uma mulher. Consegui tirar uma foto, enquanto bebia o seu refrigerante. Ele ficou até às onze da noite e foi embora. No dia seguinte, Malvino apareceu por aqui, usava camiseta, bermuda e chinelão de dedo, se ele está vestido assim é porque está de folga. Ele sentou no balcão e cheguei falando e servindo uma dose da “marvada”:
– Fala, Sargento Malvino, tudo bem?
– Tudo, Sr. Arthur… alguma novidade?
– Já que você perguntou, olha o esquisitão que apareceu por aqui! – mostrei a foto no celular e ele respondeu:
– Esse esquisitão… é o meu Capitão.
– Como?!
– É… esse cara que é o meu Capitão, ele passou por aqui?
– Passou! Inclusive veio ontem à noite. – caraca, é o Capitão?!
– Essa é a última que ele está aprontando… ele quer, porque quer que almocemos no batalhão, o problema é que é muita gente e o refeitório é pequeno, e sempre tem fila, não importa se você almoce meio-dia, uma ou duas da tarde, você pegará fila … e o pior é a rua sem policiamento, porque todos estão esperando no batalhão. Mas ele não percebe isso… e o que ele faz é ir nos restaurantes e botecos para ver se alguém da esquipe está lá.
– Ahhh, entendi… ele quebra a regra para ver se alguém quebra a regra, é isso?
– É… o Senhor tem razão. – respondeu o atônito Malvino.
– Mas não dá para organizar horário de almoço?
– Mas há um horário, o problema é que não comporta a quantidade de gente.
– Mais uma coisa, Malvino, ele também veio ontem à noite!
– Ele vem… porque ele acredita que o pessoal escalado para o sábado vai vir para encher os canecos.
– Isso não acontece, acontece?
– Claro que não, Sr. Arthur, todos que vêm é porque estão de folga… ele está fazendo assédio moral. – ele disse com tristeza no olhar, e então continuou – Ele queimou a nossa credibilidade com os outros batalhões, ninguém consegue transferir para sair daqui. Estou pensando em pedir baixa da corporação.
– Você tem certeza disso? Para onde vai?
– Talvez para uma empresa de segurança… eu ainda não sei.
– O que você acha de trabalhar aqui? – para falar a verdade, eu sempre quis um segurança no Bar Uky.
– Aqui?!
– É, você conhece o pessoal e eles te conhecem e te respeitam. Quanto que você ganha na polícia?
Ele falou quanto que ele ganha, os horários na corporação e eu fiz minha proposta, que pareceu agradá-lo, mas pediu tempo para pensar. Alguns dias depois ele apareceu por aqui e disse que aceita a minha proposta. Combinamos o dia de início dele, e ele chegou dez minutos antes do horário combinado, reuni o pessoal e apresentei o novo colaborador, que foi uma surpresa agradável para todos… e ele tem um ritual antes de entrar no Bar Uky, ele já deu uma volta no quarteirão para ver se está tudo certo. E graças ao Malvino que o Mário do pastel é meu chegado, porque ele percebeu uma movimentação esquisita na pastelaria e foi lá dar uma olhada… e foi o herói o dia!
Aliás, o Capitão apareceu por aqui, numa sexta à noite, duas semanas depois que o meu segurança começou a trabalhar por aqui… ao vê-lo, Malvino deu “Boa noite.” e o Capitão só balançou a cabeça… e não ficou muito, tomou um guaraná e foi embora com cara de incomodado. É, Malvino nos livrou de um encosto.

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