Minha Aprendiz

Olha só, eu também consegui curtir o Oktoberfest… tudo começou na quarta-feira depois da festa na minha rua. Eu já havia organizado a folga do pessoal, mas não tinha como agendar uma folga para mim, tem trabalhos que só eu realizo, foi quando Maria Flor veio e disse:

– Oi, Seu Arthur, tudo bem?

– Tudo, Flor, quer um pouco de chá?

– Não quero, obrigada. Mas quero fazer um pedido.

– Mesmo?! Pode pedir!

– Quero mais responsabilidades.

– Como?! – é, isso é incomum, geralmente o pessoal fica na sua zona de conforto e acham que estão fazendo muito, então continuei – Você quer mais trabalho?

– Isso, é que as coisas são um pouco diferentes aqui no Bar Uky… nos outros bares que trabalhei tem aquela atmosfera de que o chefe é o “Senhor” de todas as respostas. Aqui não é bem assim, todo mundo fica se ajudando e tem um ambiente mais leve, eu sei que não vou poder ficar como “hostess” para sempre, então é bom começar a ver algo diferente para fazer.

Trabalhar num bar pode ser cansativo, ficando de pé por várias horas sem contar o esforço físico, e pode ser divertido, mas isso também depende do dono, mas ela está olhando para frente… é inteligente em pensar deste jeito:

– Você faz faculdade pela manhã, não é?

– Faço, o que o senhor acha de eu chegar depois do almoço?

– É isso mesmo que iria propor, pode almoçar aqui mesmo com o pessoal, e aí vamos falar do trabalho que só eu realizo, tá bom? Consegue chegar amanhã no novo horário?

– Consigo sim.

– Bom… te mostro as tarefas depois que você tiver almoçado.

– Tá certo! Obrigada pela oportunidade!

Ela saiu feliz da minha sala, vai ser bom ter uma aprendiz, faz parte mostrar o caminho para quem deseja aprender.

No dia seguinte, ela chegou, e almoçou no próprio salão… e quando percebi, já estava na minha frente para começarmos. Peguei uma prancheta e fomos para a cozinha, e levantamos tudo que estava lá, de comida a material de limpeza, ela me viu conversar com o cozinheiro, definindo pratos e falando do pessoal. Depois fomos ver as bebidas, verificamos quais barris estavam cheios e quais estavam vazios, depois fomos checar os vinhos e os destilados, conversei com o “barman” sobre quais bebidas que mais estavam saindo. Por fim, fomos com todas as informações para a minha sala, separamos tudo por fornecedor, e depois começamos as videochamadas com os mesmos, aproveitei para apresentar a Flor e compramos tudo que estava acabando. Depois descemos e fomos para o salão, então ela perguntou:

– O senhor faz isso todo os dias?

– Sim… mas a contagem é feita em três momentos. O primeiro é feito pelo cozinheiro na cozinha assim que abre. O segundo é depois do almoço, sou eu que faço na cozinha e no bar. O terceiro é só das bebidas e o “barman” que faz, depois que fecha. Mas o nosso norte é o cardápio e todas as decisões são tomadas a partir dele. Às vezes acontece alguma esquisitice, como, por exemplo, é dia de frango com macarrão, mas por algum motivo começa a sair mais bife, então temos que ver o quanto antes para repor o que é necessário.

Ela pareceu entender. No dia seguinte, ela pegou a prancheta e foi sozinha fazer o levantamento, perguntou quando teve dúvida e, por fim, fomos fazer as compras. Fui conversar com o cozinheiro depois que estava tudo concluído, e ele perguntou:

– Conseguiu uma assistente, chefe?

– Sim, ela estava interessada, então estou dando uma chance.

– Isso é novidade para mim, – continuou o cozinheiro – geralmente o pessoal foge do serviço.

– É verdade, então é admirável quando alguém aparece, não é?!

– É… isso aconteceu com o irmão, do tio, do primo, do amigo de um chegado lá da rua. O “aprendiz” estava interessado em “aprender”, e era para roubar a conta do banco!

– Mesmo?! – perguntei porque esta história tá com cara de boato – Quer dizer que deram as senhas do banco para o aprendiz logo de cara?

– Logo de cara não, deram depois de um mês. – respondeu o pesado cozinheiro.

– É sério isso?! – é, chega de papo – Obrigado pela história, Tonhão, mas eu me viro com a Flor.

A Maria Flor não tem cara de que fará uma coisa destas, para mim ela abrirá um bistrô, servindo uma comidinha aconchegante com um bom vinho e uma sobremesa de alegrar a boca… então esse pode ser o primeiro passo para ela fazer isso um dia lá no futuro.

A semana passou e a seguinte chegou na metade, e ela já sugeria a quantidade que deverá ser comprada para o bar… foi então que joguei a bomba na mão dela: que fará as tarefas sozinha no sábado, para eu pegar o dia de folga. Maria ficou assustada num primeiro instante, principalmente porque eu disse que ela tem que chegar no primeiro horário, mas é o Malvino que abrirá e fechará o Bar Uky… expliquei que é seguir a cartilha e que deixarei anotado, detalhadamente, o que ela deverá fazer. E ela se acalmou e topou! Conversei com o pessoal no final do dia, e tudo bem, com exceção do cozinheiro que fez cara de desconfiado no dia seguinte, falei com os fornecedores, que poderiam aceitar o pedido da Maria. Na sexta-feira à noite, o cozinheiro veio falar comigo:

– Então, chefe, você vai deixar a menina fazer as coisas?

– Vou, ela sabe o que tem que fazer.

– Se você quiser, eu fico de olho nela.

– Tonhão, cuide do seu serviço! – fui enfático, ele não é um cara ruim, é só preocupado demais – Não é porque fizeram com o tio, do irmão da avó do cunhado do seu chegado, quer dizer que ela irá fazer também! ! !

Tonhão arregalou os olhos, se virou e voltou para o seu trabalho.

E no sábado, ao meio-dia… eu estava com minha esposa Carolina no Clube Hoomaha, para curtir um dia LEGAL… havia um DJ tocando várias músicas POP animadas, depois teve uma banda Country, enquanto tomávamos uma caneca da refrescante Möwenbier, uma cervejinha craft feita na praia. Pedimos cada um dogão com chucrute depois de acabarmos com as canecas… e minutos depois, duas novas canecas, cheias, estavam conosco para serem esvaziadas. O bacana de um evento que nem esse é que ninguém se conhece, mas parece que todo mundo é amigo, todos estão lá para beber, comer, dançar e se divertir… e todos estão rindo. Um casal de amigos apareceu depois das quatro da tarde, o Edson e a Mariana, ele pediu um canecão e ela um refrigerante… e depois de um tempo, pediram dois dogões com chucrute. O pessoal do clube ficou distribuindo copo de água, mas os copos acabaram logo. É, havia muita gente no recinto. Pensamos em pegar um “eisbein”, mas ele era pequeno, aí não tem graça, não é?! Fomos sair depois das seis da noite, nós quatro, bebemos muito, mas comemos pouco, paramos em uma pizzaria para fechar a noite com chave de ouro… duas pizzas grandes e uma pequena doce de banana com sorvete. Foi um dia legal, e a segunda é só depois de amanhã!

E o depois de amanhã chegou… perguntei para os garçons e para o pessoal do balcão como havia sido o sábado, responderam-me que havia sido tranquilo. Quando vi Tonhão, perguntei:

– E aí? Alguma novidade do último sábado?

– Não, chefe, transcorreu tudo bem.

– Certeza?! – é, tenho que ser chato com o chato.

– Então, a menina é gente boa, até me deu uma dica para fazer um filé mignom com molho mostarda.

Eu disse para vocês, ela vai ser dona de bistrô! ! !

Imagem gerada por IA

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